Dívida bruta vai chegar a 70% do PIB?

Com redução das metas de superávit primário e piora da economia, dívida bruta se torna o indicador mais acompanhado pelo mercado.

Fernando Dantas

04 de agosto de 2015 | 23h07

A redução das metas fiscais e uma nova rodada de piora do cenário internacional, com a queda e a instabilidade das bolsas chinesas, trouxe novos problemas para o já difícil cenário enfrentado pela equipe econômica brasileira. A trajetória da dívida bruta nos próximos anos tornou-se ainda mais central nas preocupações do mercado.

Cresceram as apostas em downgrades por parte da Fitch e da Moody’s, o que levaria a classificação do Brasil para o degrau mínimo do investment grade, onde ela já se encontra na avaliação da Standard&Poor’s. Se os temidos rebaixamentos vierem acompanhados de manutenção da perspectiva negativa, o movimento já apontará para o território do risco especulativo.

Essa piora nas perspectivas de risco levou à nova rodada de desvalorização do câmbio. O Banco Central (BC), com sua espinhosa tarefa de arrematar o longo ciclo de aperto monetário, vê-se agora duplamente atingido pelos efeitos das novas metas fiscais e da depreciação, que afetam tanto o seu modelo econométrico quanto as expectativas de inflação do mercado. Depois de muitos ziguezagues, a maioria do mercado voltou a prever alta da Selic nesta quarta-feira de 0,5%, para 14,25%, em meio à mais severa recessão brasileira em décadas.

Chamou a atenção na entrevista concedida ontem à Agência Estado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o trecho em que ele diz que “a atenção ao nível de 70% (da dívida bruta)- é extremamente justificada – não temos a intenção de furar este nível”.

O mercado julgou exageradamente otimistas as projeções do governo para a trajetória da dívida bruta neste e nos próximos anos (atinge 65,6% em 2018) divulgadas junto com o anúncio da redução das metas fiscais. Nas contas de diversos analisas, é mais provável que a meta tenda a 70% com a prevista redução do superávit primário. Levy, na entrevista ao Estado, sinalizou que a preocupação do mercado é válida e é compartilhada pelo Ministério da Fazenda. Ele revelou ainda que o Tesouro e o BC estão trabalhando em novas projeções a serem em breve divulgadas, que não serão necessariamente as mesmas apresentadas junto com as novas metas, e podem conter vários cenários.

Recente levantamento da consultoria LCA indica que os países com rating Ba1 da Moody’s, que é o degrau imediatamente abaixo do grau de investimento, têm dívida bruta média de 72,7% do PIB, o que indica que a marca de 70% é de fato significativa. Na verdade, segundo o relatório da LCA, o Brasil, que ainda tem o rating Baa2 e tinha dívida bruta de 62,5% em maio, está bem pior na média deste indicador que seus pares de rating (41,20%) e mesmo daqueles que estão no primeiro degrau do grau de investimento (Baa3), com 51,1% do PIB.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, faz o contraponto de que o Brasil apresenta indicadores externos, como dívida externa e reservas internacionais (ambos como proporção do PIB) que se saem bem melhor na comparação com outros países. Ele nota adicionalmente que estudo recente do FMI mostrou que as agências de rating dão mais peso à solvência externa do que à solvência fiscal. Assim, a sua estimativa é de que o Brasil seja rebaixado pela Moody’s e pela Fitch, mas não perca o grau de investimento (ficaria no degrau mínimo da categoria na classificação das três grandes agências de rating).

Essa é uma projeção decisiva para se predizer o grau de deterioração da atual conjuntura neste e no próximo ano. A avaliação de Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Modal, é mais pessimista. Ele considera provável, com as novas metas fiscais, que haja perda do grau de investimento, o que, na sua opinião, condicionará um novo equilíbrio do câmbio, em patamar significativamente mais alto.

No curto prazo, Ázara já vê algum impacto a desvalorização do câmbio na inflação, mas atenuado pela fraquíssima atividade econômica. “Mas sem grau de investimento, o câmbio vai ter que andar e causar mais inflação”, acrescenta. Para o economista da Modal, o “mix” de política econômica voltou a deixar o Banco Central “sobrecarregado”.

Já Borges, da LCA, pondera que mesmo as novas metas reduzidas ainda apontam uma trajetória fiscal contracionista, quando se ajusta pelo ciclo econômico. Assim, ele vê um efeito inflacionário mais pelo câmbio, que crê que possa voltar para próximo de R$ 3,2, do que diretamente pela política fiscal. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/7/15, terça-feira

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