Dívida mundial explode em 2020

Endividamento global de países, empresas e pessoas deu, no ano da primeira onda da pandemia, o maior salto desde a Segunda Guerra Mundial.

Fernando Dantas

06 de janeiro de 2022 | 11h16

Em recente artigo publicado no Blog do FMI, os economistas Vitor Gaspar, Paulo Medas e Roberto Perrelli mostram que a dívida global em 2020 deu o mais salto em apenas um ano desde a segunda guerra mundial.

Como proporção do PIB, a dívida mundial saltou 227% para 256% em 2020, um aumento de 28 pontos porcentuais (pp). Em valor, a dívida global atingiu US$ 226 trilhões.

A dívida pública mundial atingiu 99% do PIB em 2020, e foi responsável por metade daquele salto da dívida total. As duas grandes crises deste século, a crise financeira de 2008-2009 e a pandemia, deram forte impulso à dívida pública no mundo, em função dos pacotes de estímulo e apoio fiscal, especialmente dos países ricos.

Nas nações avançadas, a dívida pública saiu de 70% do PIB em 2007 para 124% em 2020. A dívida privada dos países ricos subiu menos no período, de 164% para 178% do PIB. Em 2020, entretanto, tanto a dívida pública como a privada dos ricos subiu de forma significativa, em respectivamente 19pp e 14pp do PIB.

No caso da dívida pública, a alta nos países ricos em 2020 foi equivalente à dos dois anos principais da crise financeira global, 2008 e 2009. Já a dívida privada em 2020 cresceu o dobro do ocorrido na crise financeira global. A razão é que, na pandemia, os governos incentivaram o crédito ao setor privado para apoiar famílias e empresas, enquanto a crise de 2008-09 foi justamente de endividamento excessivo do setor privado.

O artigo dos economistas do FMI menciona que, excluindo a China, os países emergentes foram responsáveis por uma parcela muito menor do aumento da dívida global, comparado às nações avançadas.

Por outro lado, eles apontam que os emergentes em geral e os países pobres têm restrições muito mais fortes ao financiamento das suas dívidas.

No final do artigo, os autores analisam o difícil equilíbrio de manejar esse alto endividamento mundial pelos diversos países num ambiente de alta da inflação e dos juros, que torna o serviço da dívida muito mais pesado.

Por outro lado, eles notam que a alta da inflação, que infla o PIB nominal, pode ajudar a reduzir o endividamento como proporção do PIB em alguns casos, mas acrescentam que “isso provavelmente não sustenta uma redução significativa da dívida”.

No caso da dívida pública, evidentemente o problema da alta dos juros pode se tornar fiscal, especialmente em países com vulnerabilidades em termos de endividamento.

O artigo não trata especificamente do Brasil, que é um caso de país emergente que, na pandemia, fez uma política fiscal cuja generosidade se aproximou daquela de algumas nações ricas.

A dívida bruta brasileira saltou de 74,3% para 88,8% do PIB entre 2019 e 2020 e, segundo projeções do Ibre, deve chegar a um pico de 97,3% em 2027 e 2028.

Evidentemente, projeções desse tipo envolvem estimativas sobre variáveis como PIB potencial e taxa de juro neutra que podem surpreender, especialmente em prazos mais longos.

Ainda assim, fica claro que o Brasil é um país que, na classe dos emergentes, têm alto endividamento, crescimento potencial insatisfatório e, no momento, enfrenta alta da inflação e dos juros que incidem sobre a dívida. E isso ocorre num cenário global em que os mesmos problemas se colocam, o que torna a situação brasileira ainda mais frágil e arriscada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/1/2022, quarta-feira.