Dívida privada e retomada do PIB

Artigo do FMI mostra que aumento forte de dívida privada (empresas e famílias) pode atrasar retomada das economias, mas com variações de país a país. Como está o Brasil nessa foto?

Fernando Dantas

19 de abril de 2022 | 20h42

Segundo recém-divulgado artigo de economistas do FMI (Silvia Albrizio, Sonali Das, Christoffer Koch, Jean-Marc Natal, and Philippe Wingender), a dívida privada global subiu 13 pontos porcentuais (pp) em 2020 (para pouco mais de 150% do PIB), pior ano dos efeitos econômicos da Covid.

Segundo a estimativa dos autores, esse níveis recentes de alavancagem de empresas e famílias pode desacelerar a recuperação da economia em 0,9% do PIB em economias avançadas, e 1,3% nos mercados emergentes, na média dos próximos três anos.

O artigo é baseado no segundo capítulo analítico do documento Perspectivas da Economia Mundial (World Economic Outlook) de abril de 2022.

Os economistas observam que o freio econômico pós-pandemia provocado pelo endividamento privado pode ser bem maior em países em que a dívida está mais concentrada em famílias em dificuldades financeiras e empresas vulneráveis; em que o espaço fiscal é limitado; em que a legislação de falência é ineficiente; e em que a política monetária precisa ser apertada rapidamente.

Eles acrescentam que famílias de baixa renda e empresas vulneráveis – que têm alta dívida, são pouca lucrativas e estão com dificuldade para pagar juros – apresentam mais dificuldade em administrar um nível alto de endividamento. Dessa forma, essas famílias e empresas provavelmente serão forçadas a fazer cortes mais drásticos de consumo e investimento no período à frente.

Como o Brasil se encaixa nesse quadro? Sem dúvida, o País tem espaço fiscal limitado e a política monetária está sendo apertada rapidamente – na verdade, a alta do juro básico no Brasil desde o ano passado foi uma das mais intensas no mundo.

Em termos de dívida de empresas, a situação, na definição de um profissional do setor bancário, “é a mais tranquila em quase 20 anos”.

O dado mais recente (de 2021, como os demais citados a seguir) sobre a relação entre a dívida líquida das empresas listadas na B3 e o Ebitda é de 1,6, a menor desde pelo menos 2012. Esse nível mais recente é metade daquele atingido no pico da série (desde 2012), que foi de 3,2 em 2016.

No caso das famílias, a fotografia não é tão exemplar. Tomando-se o conceito de Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNDBF), desenvolvido no boxe do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do Banco Central (BC) de dezembro de 2021, e agora divulgado mensalmente, o endividamento das famílias no dado mais recente está em 38,7% do RNDBF.

Esse indicador flutuou em torno de 30% entre 2016 e 2020, mas subiu fortemente desde o ano passado. Ainda assim, o nível de 38,7% tem uma cara melhor do que o endividamento das famílias de mais de 50% que aparece quando o denominador é a massa salarial ampliada disponível (MSAD) ou a RNDBF “restrita”, que o BC passou também a divulgar mensalmente, como um índice mais próximo da MSAD.

Segundo o box do RTI, A RNDBF “soma os rendimentos obtidos pelo uso de fatores de produção (trabalho e capital) e as transferências recebidas descontadas das transferências pagas, como impostos e contribuições sociais”. A RNDBF restrita exclui rendas de aluguéis efetivo e imputado e outras rendas de propriedade da família.

Numa visão mais ampla, o endividamento no Brasil das empresas e das famílias não parece configurar hoje um “sinal vermelho”, embora o das famílias talvez já esteja no estágio de “sinal amarelo”. Mas a inflação elevadíssima e sempre surpreendendo para cima, somada aos juros em alta para combatê-la, indica que esse também é um fator relevante para avaliar a capacidade de crescimento do PIB brasileiro a curto e médio prazo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/4/2022, segunda-feira.