Covid-19

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Dólar para cima, juro para baixo

Carlos Kawall (Asa Bank) e Fernando Rocha (gestora JGP) tem duas visões bem distintas sobre a combinação de alta do dólar e queda dos juros, com sinais de que o BC vai cortar a Selic acompanhando os juros futuros. Kawall vê a queda dos juros como natural, enquanto Rocha está extremamente preocupado.

Fernando Dantas

23 de abril de 2020 | 14h04

O dólar não para de subir, mas os juros já recuaram muito em relação ao momento de maior pânico, quando ficou claro que a Covid-19 chegara com tudo nos países ocidentais e no Brasil.

No mercado futuro de juros, os DIs mais curtos estão despencando com a interpretação de boa parte do mercado de que o Banco Central vai cortar mais intensamente a taxa Selic nas próximas reuniões. Mas mesmo em prazos mais longos, os DIs já devolveram na totalidade, ou em boa parte, as altas máximas atingidas há cerca de um mês.

(a coluna foi publicada na quarta, 22/4; hoje, 23/4, dia da publicação no blog, os juros dos DIs sobem, mas ainda acumulam grandes quedas)

A combinação do momento, portanto, é dólar em alta e juro em baixa.

Carlos Kawall, diretor do Asa Bank, considera que a desvalorização do real e outras moedas emergentes está ligada à aversão a risco num mundo que, embora tenha superado o susto inicial da Covid-19 (inclusive com as reações das autoridades econômica e monetárias), ainda padece de gigantescas incertezas sobre a intensidade da recessão e sobre como será o retorno a algum grau de normalidade.

Por outro lado, a queda dos juros é uma devolução do fortíssimo salto inicial da curva, e reflete ainda o fato de que o choque do coronavírus está se revelando fortemente desinflacionário.

Kawall projeta corte de 1 ponto porcentual da Selic na reunião de maio, e a taxa básica chegando a 1% no final do atual ciclo de baixa.

Os juros futuros também contêm normalmente um componente de risco ligado à esfera fiscal. Para o diretor do Asa Bank, apesar de todo o ruído político e a dificuldade de entendimento entre Executivo, Câmara e Senado, a percepção ainda é de que o megapacote fiscal ligado à Covid-19 representa gastos transitórios.

Assim, a relação dívida/PIB dá um salto, mas, passada a crise, não se prevê um descontrole fiscal crescente. Dessa forma, esse componente de risco, embora não ausente da curva de juros, não se mostra explosivo.

Uma visão bem diferente é a de Fernando Rocha, economista-chefe e sócio da gestora JGP, no Rio.

Rocha identifica a postura majoritária do mercado, inclusive da maior parte dos economistas liberais, como em consonância com Kawall, no quesito de que o BC tem espaço e deve derrubar mais a Selic.

Assim, a posição de estar comprado em dólar e aplicado em renda fixa prefixada – que ganha com a desvalorização e a queda dos juros – é para ele a predominante no mercado. Os juros recuam porque a economia afunda e a inflação sumiu, e o dólar sobe porque, sem juros altos, o capital sai do Brasil.

Mas Rocha discorda do BC que, ao seu ver, vem ratificando com a sua comunicação esse posicionamento do mercado. O economista considera uma escolha muito perigosa.

“O BC está sendo levado pelo mercado”, ele critica.

Rocha diz que, na situação atual, o BC deveria “colocar de lado o sistema de metas de inflação” e deixar claro que estava atuando mais  como um “administrador de crise”, visando a estabilizar o mercado financeiro.

Rocha nota que o Brasil, ao contrário da Argentina, tem um mercado doméstico para financiar a dívida pública, mas que este trunfo tem limites.

“Eu não sei se aguentamos com juro real negativo, conta de capital aberta e o fiscal descontrolado”, ele diz.

Aí está uma diferença significativa na análise de Kawall e de Rocha. Embora o diretor do Asa Bank esteja longe de despreocupado com o fiscal, a visão de Rocha é mais pessimista.

O sócio da JGP observa que o Brasil não é um país atrator de capitais, pelo contrário, e teve fluxo negativo de aproximadamente US$ 60 bilhões em 12 meses.

Para Rocha, o diferencial de taxa de juros em relação aos Estados Unidos e o mundo rico faz uma diferença significativa na cotação do real, enquanto derrubar mais a Selic não vai ajudar a economia, pelo spread de risco que mesmo as melhores empresas estão pagando.

Ele tem medo do momento em que poderia haver fuga da dívida pública e do real, o que poderia trazer inflação muito velozmente, mesmo com recessão. Rocha relembra 2002, quando a inflação mensal se multiplicou rapidamente em várias vezes, mesmo com a atividade em marcha lenta.

É verdade, diz o economista, que o governo brasileiro tem uma posição líquida em dólares por volta de US$ 300 bilhões. Um argumento é que o governo poderia deixar o real se desvalorizar quanto for e, no limite, recomprar toda a dívida pública com seus dólares supervalorizados.

Rocha nota que, embora em tese o argumento faça sentido, a desvalorização necessária teria que ser absurdamente alta, e antes de chegar lá a economia já teria se desorganizado de forma radical.

“Eu não estou defendendo alta de juros, 4% já é uma taxa muito baixa, minha preocupação é que me parece que nós estamos caminhando muito no limite da instabilidade financeira”, conclui Rocha.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta matéria foi publicada pelo Broadcast em 22/4/2020, quarta-feira.

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