Doria saiu, mas isso muda alguma coisa?

Analista político Ricardo Ribeiro mantém ceticismo em relação à terceira via com Simone Tebet. Para cientista político Carlos Pereira, decisão de Doria cristaliza perda de protagonismo de PSDB na esfera da disputa presidencial.

Fernando Dantas

24 de maio de 2022 | 12h41

Com a desistência de João Doria da sua candidatura à presidência da República, anunciada hoje [segunda, 23/5], a grande questão é se isso muda alguma coisa no quadro eleitoral, com a possibilidade de tornar competitiva uma candidatura centrista de “terceira via”.

Uma primeira possibilidade, claro, é que a desistência não mude nada, e a eleição continue a ser uma disputa entre Lula e Bolsonaro, com a “terceira via” efetiva – mas não competitiva – representada por Ciro Gomes, que, porém, não é centrista na visão deste colunista.

Essa é aproximadamente a visão do analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria Ponteio Política.

Ribeiro, em seu áudio da série “Café Ponteio” de hoje, já apontava “que Doria dificilmente conseguirá resistir por muito mais tempo a essa realidade [a desistência do seu nome pelos caciques do PSDB]”.

Dessa forma, o analista não se surpreendeu com a renúncia oficial do candidato hoje.

“Não tinha como segurar muito mais tempo, e judicializar eleição é bobagem – que adianta ganhar na Justiça sem dinheiro e apoio do partido?”, ele questiona.

Ribeiro considera que provavelmente a renúncia de Doria ao posto de candidato tucano à presidência, permitindo que o PSDB apoie a candidatura da emedebista Simone Tebet – e indique o(a) vice – é irrelevante em termos eleitorais.

Ele nota que Tebet tem cerca de 1% das intenções de voto nas pesquisas e Doria pontuava não mais que 2/3%. Mesmo se somando a intenção de voto dos dois políticos, mal se chega a 4%. Ribeiro também considera que parcela dos parcos eleitores de Doria podem migrar para Bolsonaro.

Segundo o analista, é possível alguma subida de Tebet nas pesquisas, já que a senadora por Mato Grosso do Sul “tem apelo, boa imagem, é mulher e fala bem”.

Mas ele acrescenta que, do ponto de vista eleitoral, o que interessa é que a candidata da terceira via centrista suba o suficiente para tirar Bolsonaro do segundo turno – já que, segundo Ribeiro, Lula praticamente já está com lugar garantido na segundar rodada de votação (se houver).

O problema, continua, “é que Tebet não tem o perfil político de quem seria capaz de atrair uma parcela relevante dos 33% dos eleitores que votam em Bolsonaro”.

Uma segunda possibilidade é que a desistência de Doria faça alguma diferença, isto é, crie a possibilidade de um embalo na terceira via centrista que possa ameaçar a atual polarização.

Essa chance, obviamente, está ligada a algum tipo de gatilho que, por enquanto, não deu sinais de acontecer no atual quadro eleitoral brasileiro.

A se pensar nas intenções de voto que hoje exibem conjuntamente os nomes da terceira via centrista via, não dá nem para dar a partida, como acertadamente observa Ribeiro.

A chance seria, como comentou à coluna o cientista Carlos Pereira, da Ebape-FGV, que “a desobstrução  [com a unificação em torno da candidatura de Simone Tebet] revele o potencial de fazer fluir a terceira via”.

Independentemente de a terceira via centrista deslanchar ou não, Pereira considera que Doria mostrou desprendimento, o que pode vir a render frutos políticos para ele no futuro.

“O governador do maior Estado brasileiro, que fez um mandato muito bom, percebeu que apesar disso não tinha apoio do próprio partido”.

O cientista político aponta ainda que o PSDB parece ter se afastado de forma mais definitiva do seu papel durante grande parte do período pós redemocratização, em que exercia protagonismo nas candidaturas a presidente.

“O PSDB já havia dado esse passo quando se tornou o partido mediano no governo Temer, mas agora, com a desistência do Doria, consolida essa nova rota”, aponta o pesquisador.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/5/2022, segunda-feira.