Downgrade e beco sem saída

Não foi surpresa, mas rebaixamento do rating do Brasil pela Fitch torna provável a perda do segundo grau de investimento, com graves consequências para o País.

Fernando Dantas

15 de outubro de 2015 | 21h17

Não foi uma grande surpresa o rebaixamento hoje (15/10/15) do rating soberano do Brasil pela Fitch para BBB-, o nível mínimo do grau de investimento. Mesmo a manutenção da perspectiva negativa já era um cenário antevisto por uma corrente de analistas. Ainda assim, a notícia reforça o tom cada vez mais soturno da conjuntura econômica brasileira.

Agora torna-se possível, até provável, que o Brasil se veja privado do grau de investimento pela segunda das três principais agências de rating dentro de um prazo que não deve exceder o fim do primeiro semestre do ano que vem.

O Brasil já perdeu o grau de investimento pela Standard&Poor’s (S&P) e a Moody’s vem sinalizando que está confortável por enquanto com a classificação Baa3 (mínima para ter o grau) com perspectiva estável. Assim, de certa forma, o jogo está nas mãos da Fitch. Como nota um conhecido gestor, que preferiu falar anonimamente, “caso a Fitch tivesse mudado a perspectiva para estável junto com o rebaixamento de hoje, seria uma boa notícia para o Brasil, pois compraria tempo”. Infelizmente, isto não aconteceu.

O gestor acrescenta que as chances de que a Fitch venha a consumar a retirada do grau de investimento são bastante elevadas, já que as perspectiva de aprovação da CPMF – fundamental para que não haja déficit primário em 2016 – parecem muito difíceis.

Na verdade, a conjuntura político-econômica caminha caprichosamente na direção contrária à que apontaria alguma melhora do atual quadro. Em artigo publicado esta manhã na Broadcast, o analista político José Roberto Toledo mostra como a esperteza do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, o fará adiar ao máximo o disparo da sua “bala de prata”, que é o poder de dar início ao impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A lógica é simples. Enquanto preservar este poder, ele pode barganhar tanto com o governo quanto com a oposição apoio à sua sobrevivência política diante dos escândalos nos quais está envolvido. Uma vez que ele tome qualquer decisão sobre o impeachment, isto é, dispare a bala de prata, o deputado se transformará apenas num político manchado por denúncias seriíssimas do qual governo e oposição procurarão se afastar – e não terão o menor incentivo para salvar.

Do ponto de vista da dramática situação fiscal, esse é justamente o pior quadro político possível. Como explica o gestor mencionado acima, “o mercado já mostrou que consegue conviver com o PT, e provavelmente conseguiria conviver com outro governo também – o que é fatal é a paralisia decisória, incluindo a do Congresso, enquanto não se resolve a queda de braço em torno do impeachment”.

Já Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, pensa que a equipe econômica deveria ter um plano B para o caso da não aprovação da CPMF. Ele nota que, na audiência de ontem do ministro Joaquim Levy na Câmara de Deputados, vários parlamentares alertaram que a CPMF não vai passar. Como a tramitação de uma emenda constitucional é lenta, Rocha antevê um cenário em que, com o governo sendo derrotado em meados do ano que vem, não haverá tempo para recompor uma estratégia para garantir o superávit primário.

Rocha lembra ainda que a perda do grau de investimento pela segunda agência não só obriga muitos fundos e investidores institucionais a se desfazer de papéis do País, o que já pode estar sendo antecipado, mas também impede novas aplicações – o que pode complicar ainda mais o cenário das empresas brasileiras necessitadas de financiamento externo.

A sensação geral é de que o País caminha quase resignado para perder o segundo grau de investimento, como um condenado à morte caminha para a execução. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/10/15, quinta-feira.