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Duas razões para ficar alerta em relação ao Fed

José Júlio Senna, do Ibre/FGV, acha que dissidências no Fed e alta das projeções da taxa básica feita pelos membros do FOMC são motivos para ficar alerta em relação a um ajuste precoce de juros nos EUA.

Fernando Dantas

24 de setembro de 2014 | 23h05

O economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vem se dedicando recentemente a estudar a questão da trajetória das taxas de juros internacionais no mundo pós-crise global. Um dos aspectos centrais desse debate é a volta da tese de estagnação secular, que indicaria uma crônica insuficiência de demanda nos Estados Unidos e em boa parte dos países ricos.

Isto, por sua vez, apontaria para um novo nível de equilíbrio dos juros internacionais mais baixo do que se supunha anteriormente, o que é uma boa notícia para países dependentes de financiamento externo, como o Brasil. A reflexão de Senna inclui a observação de que o núcleo decisório do Fed, em torno da chair, Janet Yellen, endossa cautelosamente, em seus pronunciamentos e previsões, a ideia de juros internacionais mais baixos.

Senna, entretanto, faz uma nota de cautela sobre as suas próprias observações, baseada em fatos que lhe chamaram a atenção recentemente.

O primeiro é que, em relação ao “núcleo” de Yellen, do qual também fazem parte o vice-chairman, Stanley Fischer, e o presidente do Fed de Nova York, William Dudley, há hoje duas dissidências formais, com posições mais “hawkish”, isto é, preocupadas com inflação e, principalmente, com a possibilidade de estímulos à instabilidade financeira com eventual criação de bolhas – Charles Plosser, presidente do Fed da Philadelphia e Richard Fisher, presidente do Fed de Dallas.

O economista do Ibre explica que o Fed tem uma forte tradição de evitar explicitar publicamente as suas dissidências internas. Assim, as dissidências mencionadas não devem ser encaradas como um acontecimento trivial.

O segundo fato que chama a atenção de Senna é uma aparente contradição entre as previsões do Fed para o comportamento do PIB e para o caminho da taxa básica de juros. A projeção central do PIB para 2015 caiu do intervalo entre 3% e 3,2%, apontado em junho, para o de 2,6% a 3%, em setembro. Até aqui, parece haver coerência com a hipótese da fraqueza da demanda.

Surpreendentemente, no entanto, houve uma alta na mediana e na média das projeções individuais dos membros do FOMC (comitê de política monetária do Fed) sobre o juro básico. De uma mediana de 1,13% para o final de 2015 e de 2,5% para o final de 2016 em junho, saltou-se para, respectivamente, 1,38% e 2,88% em setembro.

Assim, as projeções de PIB e juro parecem caminhar em sentidos opostos. Para Senna, as dissidências e as contradições das projeções do Fed indicam que há um jogo de pressões contrárias dentro da instituição, e o velho dilema entre estabilidade (que aqui entraria como a preocupação com bolhas) e crescimento. De certa forma, ele diz, vive-se um momento com o de maio do ano passado, quando os primeiros sinais sobre o início da redução da terceira rodada de afrouxamento quantitativo levaram turbulência aos mercados.

Senna vê algum risco de ação precoce do Fed no ajuste para cima do juro básico, mas que viria acompanhada de um grande esforço de comunicação para evitar o solavanco de meados do ano passado. De qualquer forma, mesmo que o juro não suba muito, os efeitos devem se fazer sentir rapidamente nos juros e câmbio de países latino-americanos. A fase de extrema liquidez pode acabar mais rápido do que se pensava, e o Brasil faria bem em se preparar para este momento.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/9/14, sexta-feira.

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