Duas visões sobre a ruptura do euro

Fernando Dantas

21 de novembro de 2011 | 20h03

Abaixo, minha coluna da AE-News/Broadcast da quarta-feira passada, dia 16/11:

Nos últimos meses e semanas, cresceu a probabilidade de uma ruptura do euro, atribuída por alguns dos mais prestigiados economistas do mundo.

Esse era, até pouco tempo atrás, um desfecho quase impensável para a atual crise na Europa. Afinal, a moeda única foi o coroamento de um processo de integração continental no pós-guerra que é considerado como um dos eventos geopolíticos mais importantes da nossa era. O projeto de união europeia, objetivo político de alta grandeza, levado a cabo por algumas das mais poderosas nações do mundo, não era algo que pudesse ser ameaçado por uma crise econômica, por mais potente que fosse.

Essa percepção começou a mudar nas últimas semanas, à medida que foi ficando mais claro que todo o arsenal de soluções convencionais postas em prática, ou consideradas em teoria, pelas autoridades europeias não seria suficiente para reverter o curso de deterioração econômico-financeira e social dos países afetados.

As falhas iniciais do projeto da moeda única subitamente tornaram-se evidentes e gritantes: sem uma renúncia à soberania nacional muito mais profunda do que a contemplada nos acordos da União Europeia e do euro, não há como impor uma disciplina que force os países mais atrasados ou mais desorganizados a convergir para os padrões de produtividade e governança daqueles mais potentes economicamente. E, sem essa convergência, não há como fazer com que a cotação do euro que torna uma Alemanha competitiva produza o mesmo resultado na Grécia, em Portugal, na Espanha e até na Itália.

A constatação desse problema, porém, tornou-se um problema adicional, já que deu margem a “soluções” que só aprofundam a crise. Assim como determinados regimes de vida previnem doenças, mas nem sempre podem ser seguidos depois que a pessoa já está doente (pense em exercícios físicos e doenças cardíacas), a disciplina que teria evitado o atual impasse não ajuda neste momento a resolvê-lo.

Depois do estouro da grande bolha que afetou a maior parte do mundo rico, o rescaldo de endividamento excessivo (absorvido pelo setor público, no caso dos países europeus problemáticos) criou um ambiente de crescimento baixo ou negativo e déficits fiscais do qual não se consegue sair com austeridade. A razão é que a contenção da demanda derivada do setor público deprime ainda mais a economia e reduz a arrecadação.

Adicione-se a esse caldo o câmbio relativamente forte resultante da força exportadora alemã e tem-se na Europa mediterrânea (e Irlanda) um ciclo vicioso de contração econômica, perda de competitividade, desemprego, endividamento crescente e austeridade contraprodutiva que alguns dos melhores economistas do mundo já consideram terminal.

A grande dúvida, agora, é como se daria uma ruptura do euro, e quais as seriam as consequências. Aqui, quem busca a visão dos especialistas pode ficar perdido. O fato é que a saída de um ou mais países do euro é um cenário tão inusitado e potencialmente explosivo que foge à capacidade dos analistas de projetar com seus conhecimentos especializados e seus instrumentos habituais.

Recentemente, em entrevistas com dois economistas de grande prestígio internacional, obtive respostas diametralmente opostas para aquela indagação.

Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), considera “nonsense” a ideia de que uma saída do euro represente uma calamidade tão grande que estaria praticamente descartada a priori pelos países mais afetados pela crise, como a Grécia.

Para Rogoff, que considera muito provável que um ou mais países acabem deixando o euro, os custos de permanência são muito mais altos do que os de saída da moeda única. Ele estima estes últimos em, no máximo, 1% do PIB para os países que decidirem descartar o euro.

É verdade que Rogoff estava se referindo aos custos para o próprio país, e não às consequências para a Europa como um todo ou o resto do mundo. Mas uma crise continental ou global muito violenta afetaria inevitavelmente os próprios países que a teriam causado ao romperem com o euro. Assim, a previsão de Rogoff traz implícita a ideia de que os efeitos sistêmicos e transnacionais da ruptura do euro, mesmo que violentos num primeiro momento, não teriam necessariamente de ser uma catástrofe aterrorizante.

O outro entrevistado, Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, tem uma visão muito diferente. Para ele, uma ruptura do euro “faria (a quebra do) Lehman Brothers parecer um passeio no parque”.

Um dos maiores especialistas em moedas globais e sistema financeiro internacional, Eichengreen sustenta há muito tempo a visão de que os entrelaçamentos econômicos, financeiros, logísticos e geopolíticos do bloco do euro são tão profundos, e estão tão amarrados em termos institucionais, que um abandono da moeda única corresponde quase ao ato de atear fogo na casa.

A saída do euro, observou ele em artigos e trabalhos, envolve desde a renegociação unilateral de tratados internacionais à redenominação de contratos, salários, depósitos e até à confecção e distribuição de cédulas e moedas, à reprogramação geral de computadores e sistemas de pagamento, caixas automáticos, etc.

Todo esse imenso desafio diplomático e logístico, porém, teria de ser feito às pressas e à surdina, em contradição com as instituições democráticas dos países afetados. A razão é que o conhecimento antecipado de uma saída do euro (e da enorme desvalorização consequente) provocaria uma corrida bancária gigantesca, exigindo não só a imposição de um congelamento de depósitos bancários e ativos financeiros, como o corralito argentino de triste memória, como possivelmente o fechamento de fronteiras para evitar o escoamento de euros em espécie para o exterior.

Ainda assim, mesmo supondo que os governos tivessem a competência para controlar em alguma medida o caos da reintrodução da moeda nacional (que certamente viria acompanhada de um calote drástico da dívida pública), quebradeira bancária, estouro da inflação e aprofundamento da contração econômica num primeiro momento seriam praticamente inevitáveis.

O dado novo das últimas semanas, e que torna ainda piores os prognósticos que podem ser derivados da análise de Eichengreen, é a extensão da desconfiança dos mercados a grandes economias europeias como Espanha, Itália, e até França.

Apenas a Itália, com sua dívida de 1,9 trilhão dos euros, boa parte dela nas mãos de bancos estrangeiros, já deixa entrever que uma ruptura caótica do euro, acompanhada de defaults, tem potencial para causar um curto-circuito econômico-financeiro na economia global similar, ou até pior, do que o provocado pela quebra do Lehman Brothers em 2008 – esta é, pelo menos, a visão daqueles que, como Eichengreen, não enxergam como o processo de desmontagem da moeda única possa ser levado a cabo sem derivar para o descontrole e o caos.

Coerentemente com esse ponto de vista, o economista de Berkeley ainda evita atribuir à implosão do euro o status de cenário central, isto é, de mais provável. Diante de perspectivas tão negras, ele alimenta esperanças de que as autoridades econômicas e políticas envolvidas no imbróglio farão o possível e o impossível para evitar esse desfecho trágico.

Já Rogoff, que enxerga a ruptura do euro com olhos menos catastrofistas, não se acanha em atribuir alta probabilidade de que a história termine desta forma. O que nos leva à pior combinação de projeções, que certamente está no radar do Banco Central e dos analistas mais atentos: que Rogoff esteja certo sobre a probabilidade de implosão do euro, e que Eichengreen tenha razão sobre quais seriam as reais consequências deste desfecho para a crise europeia.

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