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Duplo golpe

Prisões de Delcídio e Esteves são exemplo de como problemas políticos e econômicos se retroalimentam na atual crise brasileira.

Fernando Dantas

26 de novembro de 2015 | 10h33

A prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado, e do banqueiro André Esteves, controlador e ceo do banco BTG Pactual, é mais um exemplo do caráter dual, econômico e político, da atual crise brasileira. As surpresas negativas que vêm ocorrendo nessas duas esferas distintas, porém interligadas, da vida nacional se retroalimentam, tornando ainda mais difícil ancorar as expectativas e estancar a contínua deterioração das perspectivas do País.

O mercado financeiro reagiu mal, como seria de se esperar, com alta do dólar e dos juros futuros, e queda da bolsa. Operadores ressabiados veem duas dimensões específicas pelas quais os eventos de hoje afetam os ativos brasileiros.

A primeira delas é o agravamento do impasse político, que é engrossado também pela prisão do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O escândalo parece mais próximo de Lula”, comentou um economista-chefe.

Adicionalmente, a prisão de Delcídio, considerado um político hábil e moderado – independentemente da culpa que tiver ou não em relação às acusações contra ele – deve tornar ainda mais difícil a aprovação das medidas necessárias para evitar o naufrágio total do ajuste fiscal.

Por uma infeliz coincidência, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, vem tentando nos últimos dias diversificar o seu discurso, que, segundo uma profusão de relatos na imprensa, é duramente criticado por Lula pelo que seria o foco excessivo nas contas públicas. O teor mais recente da comunicação de Levy parece ser o de que o Executivo já fez sua parte, enviando ao Congresso as medidas necessárias para fazer o ajuste fiscal, e de que cabe agora ao Legislativo mover-se com a velocidade e a urgência que a atual crise demanda.

É evidente que a prisão de Delcídio pode desacelerar ainda mais o ritmo de tramitação no Congresso, exatamente no momento em que o governo colhia os primeiros sinais de melhora da articulação política na Câmara, com a manutenção de importantes vetos à chamada “pauta-bomba”.

Mas há uma segunda vertente pela qual as prisões de hoje afetaram os mercados, ligadas diretamente à figura de Esteves, do BTG Pactual. O BTG é um banco importante e, embora a situação esteja longe de apontar para desdobramentos mais sérios, o principal capital de uma instituição financeira é a confiança. Em meio a uma forte recessão, com preocupações crescentes sobre inadimplência, não há como não deixar de pensar em estresse adicional sobre as condições de crédito e, na pior instância, riscos sistêmicos.

Como noticiou a Agência Estado, as ações e títulos externos do BTG Pactual tiveram quedas muito fortes nas negociações de hoje, e o Banco Central apressou-se em declarar que o banco apresenta robustos indicadores de solidez financeira e continua operando normalmente no mercado. O problema do BTG Pactual, porém, vai além da esfera imediata das condições de liquidez e de crédito. A instituição está bastante envolvida em negócios investigados no âmbito da operação Lava-Jato, tendo participações na Sete Brasil e no banco suíço BSI.

Na comunidade empresarial, há o temor de que a prisão daquele que é provavelmente o mais bem-sucedido jovem empresário brasileiro, cujos negócios ramificam-se do setor financeiro para diversos segmentos da economia nacional, alimente ainda mais a paralisia decisória que trava os investimentos.

Por outro lado, a médio e longo prazo, a moralização das relações entre os setores público e privado no Brasil pode ser um trunfo para o País, na comparação com outros países emergentes – um ponto que vem sendo feito por analistas internacionais, como o respeitado economista Dani Rodrik. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/11/15, quarta-feira.

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