É bom não confiar demais

Uma corrente de analistas tem uma leitura menos otimista do cenário internacional que vem beneficiando o Brasil. Haveria o risco de superaquecimento da economia dos Estados Unidos, o que poderia elevar a inflação nos EUA e os juros americanos e internacionais. Os políticos brasileiros, porém, gostam de brincar com a sorte.

Fernando Dantas

31 de janeiro de 2018 | 19h34

Um dos pressupostos de boa parte dos cenários relativamente otimistas que vêm sendo feitos sobre a economia brasileira é o de que o ambiente externo permanecerá favorável. Na comunicação do Banco Central, esses bons ventos externos já foram chamados de “interregno benigno”. Resumidamente, os principais centros da economia global crescem de forma sincronizada, mas sem inflação. Em consequência, os juros internacionais permanecem baixos, mas o preço das commodities se eleva. Não há nada melhor para a economia brasileira.

Alguns analistas, entretanto, têm uma leitura diferente do cenário internacional. Na verdade, os juros estão subindo. O principal benchmark, a rentabilidade do título do Tesouro americano de dez anos, saiu de ligeiramente mais que 2% em setembro passado para 2,7% hoje. A interpretação benigna é de que se trata de um ajuste ordeiro, concomitante à compressão dos spreads de ativos mais arriscados, como os papéis brasileiros. Já analistas mais preocupados não descartam a possibilidade de que a alta de juros já ocorrida seja apenas o início de um processo, que pode se tornar mais pronunciado e pôr fim ao “interregno benigno”.

Uma inquietação em particular é relativa à economia dos Estados Unidos. A recuperação já se dá num ritmo robusto e o mercado de trabalho está aquecido e, em várias métricas, muito perto do pleno emprego. Não há sinal de inflação, é verdade – pelo contrário, houve uma surpresa desinflacionária em 2017.

O problema é que a política econômica de Donald Trump, com redução da carga tributária, uma nova tentativa de aumentar investimentos em infraestrutura e protecionismo comercial, é uma forma de jogar mais lenha na fogueira da economia já acelerada. Assim, a inflação poderia ressurgir no mapa em algum momento e levar a uma alta dos juros mais brusca e intensa.

Nesse caso, as outras grandes economias não iriam contrabalançar o eventual superaquecimento dos Estados Unidos. O comércio global está em aceleração e tanto a Europa e o Japão estão crescendo como há muito tempo não se via (para os baixos parâmetros das últimas décadas). Na China, no passado recente a grande “exportadora” de desinflação para o resto do mundo, a inflação sinaliza alta tanto ao produtor quanto ao consumidor. Movimentos semelhantes ocorrem em outros países asiáticos.

É verdade que esse reinflacionamento na Ásia é um processo lento, mas nem por isso deve ser ignorado. No último ano e meio, o núcleo por exclusão de alimentos e energia da inflação chinesa subiu de cerca de 1,5% para 2,2%.

O resumo da história é que o benefício da dúvida que o mercado internacional vem dando ao Brasil, em termos do equacionamento da crise fiscal, pode ter prazo de validade não muito distante no futuro, segundo uma corrente de analistas. As experiências passadas mostram que mudanças negativas no mercado externo podem ocorrer de forma extremamente rápida, que tende a pegar países emergentes vulneráveis de calças curtas.

O sistema político brasileiro continua a agir como se o País dispusesse de todo o tempo do mundo para se ajustar, como fica claro no caso da reforma da Previdência, com grandes chances de ser adiada para o próximo governo. O bom momento dos mercados, em especial depois da condenação de Lula em segunda instância, reforça essa complacência política. Mas rupturas agudas no apetite por risco dos investidores internacionais costumam ser súbitas, drásticas e sem aviso prévio. O Brasil continua a brincar com a sorte. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/1/18, quarta-feira.

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