É bom não contar com a sorte

Há diversos fatores que Temer, Meirelles e a equipe econômica não controlam, ou controlam apenas parcialmente, e que podem influenciar no sucesso da sua missão.

Fernando Dantas

07 de agosto de 2016 | 23h06

Em diversos aspectos, a probabilidade de que Michel Temer, Henrique Meirelles e o novo “dream team” da área econômica sejam bem-sucedidos depende de fatores que eles não controlam, ou que controlam apenas parcialmente.

O mais evidente deles, entre os que são totalmente insensíveis à atuação do governo, é a situação internacional, que até agora vem ajudando, e muito, o presidente em exercício. Enquanto a economia norte-americana nem decola de vez nem mergulha de volta na recessão, e o resto do mundo rico continua a lutar contra a deflação, a liquidez internacional segue sendo estimulada por aquilo que os principais BCs fazem ou deixam de fazer – neste segundo caso, está a normalização da política monetária norte-americana, com perspectiva cada vez mais delongada. A situação, porém, não parece suficientemente feia para que haja fuga de capitais para ativos de baixo risco. Assim, os juros mundiais estão baixíssimos e há apetite para os arriscados ativos brasileiros.

Outro fator que tampouco está sob o controle da equipe econômica – e que pode ajudar ou atrapalhar bastante o ajuste da economia brasileira – é o fato de que o deflator implícito do PIB vem rodando há (pelo menos) quase duas décadas acima do IPCA.
Por duas vias, esse fenômeno contribuiu para conter o aumento da relação dívida pública-PIB. O primeiro é que as receitas tributárias, ligadas à produção, tendem a acompanhar o deflator, enquanto as despesas estão mais alinhadas com a inflação medida por índices como o IPCA. Além disso, o denominador da relação dívida/PIB é corrigido pelo deflator implícito, enquanto a correção monetária do numerador está mais próxima de índices de inflação convencionais.

Um fator sobre o qual Temer e Meirelles têm controle apenas parcial é o humor da sociedade e do Congresso em relação ao ajuste fiscal. Por melhor que seja a articulação política do presidente em exercício e sua capacidade de negociação com o Congresso, existe um elemento imponderável em relação ao grau em que as mudanças, como a PEC do limite do gasto e a reforma da Previdência, serão aprovadas tal como foram (ou serão) enviadas ao Legislativo – na hipótese de que sejam aprovadas.

Esse processo de se “aguar” o conteúdo fiscal das propostas do governo já está sendo visto na negociação com os Estados, com a desistência de se definir mais rigorosamente os gastos de pessoal para efeitos do seu limite como proporção da receita líquida, o que evitaria que os governos estaduais driblassem o teto com manobras como excluir benefícios e terceirizados da contabilização da despesa com a folha.

Em relação a todos esses fatores não controláveis ou pouco controláveis, o governo não deveria contar com a sorte. Não deveria, portanto, em seus cálculos sobre como reconduzir as contas públicas brasileiras a um estado saudável e plenamente solvente, ter como pressuposto que prosseguirão neste e nos próximos anos tanto o cenário internacional de alta liquidez e apetite de risco quanto a trajetória do deflator do PIB acima do IPCA. Tampouco deveria pressupor que vai vencer tudo no Congresso.

Na verdade, se for para montar uma estratégia segura e confiável de resgate da economia brasileira, o governo deveria torná-la à prova de azar. Assim, ela deveria ficar de pé mesmo no caso de que todos esses fatores de risco não controláveis ou parcialmente controláveis evoluíssem de forma desfavorável. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/8/16, quarta-feira.

Tendências: