É o câmbio, estúpido

Novo presidente do BC, Ilan Goldfajn, deixa subentendido em entrevista que valorização do real pode ter papel importante na política anti-inflacionária.

Fernando Dantas

29 Junho 2016 | 10h56

Durante sua entrevista na divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de junho, hoje pela manhã, Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central (BC), enfatizou seguidamente como a convergência da inflação para o centro da meta em 2017 – objetivo mantido e reafirmado da autoridade monetária, que descartou o uso de uma meta ajustada para o próximo ano – pode ser facilitado pela mudança em curso da política econômica em seu conjunto, e não apenas pelo ajuste fiscal.

Evidentemente, a parte fiscal é o núcleo da mudança, mas o recado de Ilan foi o de que as novas diretrizes, que podem encaminhar uma solução para as dúvidas sobre a solvência pública futura e recolocar o País em rota de crescimento, vão resgatar a confiança e reduzir o risco País. Isto, por sua vez, pode ajudar a fazer as expectativas de inflação para 2017, em torno de 5,5%, convergirem na direção da meta de 4,5%. Se isto acontecer, a política monetária terá um suporte anti-inflacionário que poderia, seguindo a lógica normal de encadeamento dos fatos, permitir cortes da Selic menos distantes e maiores do que no caso contrário.

O que não foi dito durante a coletiva, entretanto, é que o canal pelo qual tipicamente a redução do risco País se traduz em força desinflacionária é a apreciação da taxa de câmbio. Em outras palavras, a impressão é de que o ciclo de afrouxamento monetário depende fundamentalmente do comportamento do câmbio, que vem produzindo surpresas agradáveis, em termos desinflacionários, mesmo frente a um traumático evento internacional como o Brexit.

O câmbio, como se sabe, tem múltiplas determinações e é das variáveis mais imprevisíveis. Do ponto de vista das contas externas, o Brasil realizou um admirável ajuste de quatro pontos porcentuais do PIB na conta corrente de forma extremamente rápida. Já no front do risco País, a aposta de Ilan é de que o rearranjo geral da política econômica no governo do presidente em exercício, Michel Temer, vai produzir grandes e significativas melhoras.

Resta, portanto, o cenário internacional, e foi significativo que o presidente do BC o tenha apontado como principal risco para a política monetária, quando esta pergunta lhe foi feita. Ilan falou dos riscos para o crescimento global, que evidentemente dificultam as políticas econômicas de todos os países, mas, do ponto de vista mais específico e de curto e médio prazo da política monetária, o fator internacional mais relevante para a inflação no Brasil é o apetite de risco, que influencia o risco Brasil, e, em consequência, a taxa de câmbio.

Também chamou a atenção a resposta bastante protocolar de Ilan à pergunta sobre a continuidade da política de reduzir liquidamente à exposição ao dólar em swaps cambiais. Ela deve ocorrer em ritmo compatível com as condições normais de mercado “quando e se” for possível. Junto com nova profissão de fé no câmbio flutuante, a resposta parece sinalizar que o BC deixará ocorrer qualquer nível de apreciação cambial que julgue compatível com a melhora dos fundamentos do País.

Finalmente, uma das principais diferenças nos cenários de referência (no qual o IPCA fica em 4,7% em 2017 e cai para 4,2% no segundo trimestre de 2018) e de mercado (5,5% em 2017 e 5,5% no segundo trimestre de 2018) são justamente as projeções de câmbio. O cenário de referência trabalha com o nível de R$ 3,45 da data de corte até o horizonte de previsão; e o de mercado com R$ 3,58 para o último trimestre de 2016, R$ 3,80 no final de R$ 2017 e R$ 3,90 no fim de 2018. O câmbio no momento em que esta coluna estava sendo negociada era negociado a R$ 3,32, abaixo da cotação da data de corte. (fernando.dantas@estadao.com)

 

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/6/16, terça-feira.