E o Consenso de Washington tinha razão?

Fernando Dantas

15 de agosto de 2013 | 16h57

John Williamson poderia, talvez, se sentir vingado por todos os problemas que o governo Dilma colheu ao tentar trocar o “tripé” pela “nova matriz econômica”. Afinal, o economista inglês, radicado em Washington, é conhecido por ser o organizador do “Consenso de Washington”, que é a principal fonte de inspiração na América Latina para todas as políticas econômicas de recorte mais liberal, como o tripé introduzido no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, e que consiste na combinação de metas de inflação, câmbio flutuante e superávits primários que reduzam a relação entre a dívida pública e o PIB.

Williamson, porém, fiel ao seu estilo britanicamente reticente, diz apenas que “não estou surpreso”, quando indagado sobre os atuais problemas econômicos brasileiros após a introdução da heterodoxia. Ele chegou esta semana ao Brasil, onde vai passar uma temporada de um mês, trabalhando no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio. Junto com a equipe macroeconômica do Ibre, a intenção de Williamson é contribuir para o debate sobre o produto potencial brasileiro.

O economista, de 76 anos, tem relações bem próximas com o Brasil: é casado com uma brasileira, e tem filha e neta morando no Rio. Ele ficou intrigado com as discrepâncias na avaliação do potencial de crescimento brasileiro. Há dois anos, esteve no País e, em contato com membros da equipe econômica, foi informado de que o potencial era de 4% ou mais.

Na última reunião de primavera (abril) do Fundo Monetário Internacional, porém, a instituição estimou o crescimento potencial brasileiro entre 2,5% e 3%. Williamson nota que o governo ter um número para o PIB potencial acima da realidade pode levar a políticas fiscais e monetárias expansionistas, que sobreaquecem a economia e criam problemas de inflação e desequilíbrio no balanço de pagamentos.

O economista teve uma reação de interesse e surpresa quando, em conversa com este colunista, foi informado que o Banco Central já trabalha com um PIB potencial em torno de 3%, e que há economistas que veem um número mais próximo de 2%.

De qualquer forma, ele acha que os problemas de gestão econômica, especialmente na parte microeconômica, podem estar reduzindo a capacidade de crescimento da economia brasileira.

“Uma das coisas que se aprendeu é que há um efeito positivo de a política econômica ser consistente, mas o que vemos no Brasil são mudanças de política o tempo todo”, ele critica.

Williamson refere-se principalmente aos incentivos tributários e creditícios distribuídos a torto e a direito pelo governo para impulsionar a economia. Ele acha que estas iniciativas criam incertezas que mais prejudicam do que estimulam a atividade econômica.

Ele também critica fortemente a virada protecionista da política econômica nos últimos anos. O economista acha ilusória a ideia de que se pode proteger a indústria como um todo, em oposição à agropecuária e à mineração – que são os setores que mais foram beneficiados pela conjuntura mundial dos últimos anos, e cujo sucesso causaria a chamada “doença holandesa”, prejudicial às manufaturas, e ligada à apreciação cambial.

Williamson nota que, quando se escolhem determinados setores industriais para proteger, outros segmentos da própria indústria são prejudicados, seja porque dependem de insumos dos protegidos ou porque ficam comparativamente menos atraentes.

Em relação à política macroeconômica recente, Williamson critica a tolerância exagerada com a inflação e a deterioração da política fiscal. Sobre o câmbio, porém, ele diz que não é “dos que mais acreditam em flutuação”. Para o economista inglês, o governo não deve ter uma meta para o câmbio, mas isso não significa ser indiferente a qualquer cotação. Ela acha legítima a preocupação em que a moeda não fique “forte demais ou fraca demais”.

Assim, ele endossa a atuação do governo e do BC no câmbio desde 2011, quando políticas de controle de capitais e acumulação de reservas tentaram evitar uma valorização maior da moeda. Na verdade, mesmo com toda a desvalorização já ocorrida este ano, Williamson considera que o real ainda tem “mais caminho a percorrer” na perda de valor ante o dólar. Mas ele já nota a diferença entre o momento atual e fevereiro, quando esteve uns poucos dias no País, e achou os preços extremamente caros.

Quanto às manifestações de junho, Williamson acha perfeitamente compreensível que as pessoas exijam melhores serviços públicos num país com a carga tributária do Brasil. E aproveita para lembrar que o segundo item da lista de recomendações da primeira versão do Consenso de Washington, de 1990, era a de “redirecionar os gastos públicos”. Ele só lamenta que “este tenha sido o ponto menos implementado, na América Latina e no resto do mundo, de todo o Consenso de Washington”.

(abaixo, um outro post novo no blog, sobre o ceticismo do economista Alexandre Schwartsman em relação à nova postura do Banco Central, que vem sinalizando mais disposição de lutar contra a inflação)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broacast

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