E o FMI tinha razão… na Coreia do Sul

Estudo de economistas mostra que reformas em 1998 para enfraquecer dominação dos chaebols, conglomerados de empresas, foram positivas para a Coreia do Sul.

Fernando Dantas

27 de janeiro de 2022 | 19h17

A Coreia do Sul é comumente apontada por desenvolvimentistas como exemplo de um país em que uma pesada política industrial deu certo. No pós-guerra, grandes grupos empresariais, os “chaebols”, tiveram maciços subsídios e direcionamento de investimentos pelo governo e foram a base da potência industrial na qual a Coreia do Sul se transformou.

No entanto, após a crise asiática de 1997, que atingiu em cheio a economia coreana, o FMI se intrometeu no modelo econômico do país asiático. Pressionada pelo Fundo, a Coreia do Sul fez substanciais reformas para abrir a economia ao capital estrangeiro, reduzir o poder dos chaebols, estimular a entrada de novas empresas não chaebol no mercado e fomentar a competição.

Recente trabalho dos economistas Philippe Aghion, Sergei Guriev e Kangchul Jo (“Chaebols e dinâmica de firmas na Coreia”), publicado na revista Economic Policy, mostra que as reformas de 1998 de fato reduziram o poder dos chaebols, aumentaram a presença de competidores não chaebol e foram positivas para a produtividade da economia coreana. Em resumo, o FMI tinha razão.

Os economistas, na introdução do trabalho, escrevem que a Coreia do Sul é um país bem sucedido na transição entre um modelo de crescimento baseado no investimento para um modelo baseado na inovação, e pensam que as reformas de 1998 podem ter sido decisivas para esse passo.

De maneira bem simplificada, o modelo de crescimento baseado em investimento é o mais adequado para levar um país pobre até a renda média, na base de copiar e investir pesadamente. A partir daí, porém, é preciso ir para a fronteira e inovar, e o ambiente econômico e de negócios têm que ser competitivo e favorável à inovação e ganhos de eficiência. Quem não consegue fazer essa transição, fica preso na chamada armadilha da renda média, como o Brasil e boa parte da América Latina.

Os autores utilizam o censo industrial da Coreia para, em nível das firmas, investigar econometricamente se as reformas de 1998 de fato aumentaram a entrada de empresas não-chaebol no mercado, e mapear também a produtividade dessas entrantes em setores previamente dominados pelos chaebols.

Os resultados mostram que, após as reformas, em setores previamente dominados por chaebols, o aumento da produtividade foi mais rápido nas empresas não-chaebols. Também aumentou muito a entrada de não-chaebols em todos os setores. As saídas de empresas também aumentaram de forma generalizada, mas em setores previamente dominados por chaebols houve menos saída de empresas não chaebols.

Em termos de patentes, houve uma aceleração nas empresas não chaebols em todos os setores, e desaceleração em empresas chaebol em segmentos em que anteriormente a participação desses grandes grupos era maior.

Outro resultado é que as margens dos chaebols em setores onde eles eram dominantes caíram, enquanto as margens das empresas não chaebol aumentaram ligeiramente em todos os setores.

Segundo os autores, “tomados conjuntamente, esse resultados são consistentes com a visão convencional de que as reformas de 1998 ajudaram a reduzir a dominância dos chaebols, aumentaram a competitividade da economia coreana e promoveram aumento da eficiência e inovação”.

Eles acrescentam na conclusão que “esses resultados estão em linha com uma visão neo-schumpeteriana [referência ao conceito de “destruição criativa” no capitalismo do economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950)] da transição de crescimento baseado no crescimento para crescimento baseado em inovação à medida que a crise [asiática de 1997] enfraqueceu o poder dos chaebols e abriu uma janela de oportunidade para reformas pró-competição”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/1/2022, quarta-feira.