E os próximos 40 anos?

Nos 40 anos até 2020, o desempenho do Brasil em termos de renda per capita terá sido ridículo comparado à China e à Coreia, muito inferior ao do Chile e pior até que o dos Estados Unidos, o que aumenta nossa distância em relação ao mundo rico. 2018 será apenas mais um ano bom na economia, em meio a muitas décadas perdidas consecutivas, ou será o início da retomada do desenvolvimento?

Fernando Dantas

02 de janeiro de 2018 | 19h33

Segundo os dados e projeções do FMI, a renda per capita brasileira, medida em dólares e com paridade de poder de compra (PPP, na sigla em inglês), terá crescido 30% de 1980 a 2020, de US$ 11,2 mil para US$ 14,6 mil (de 2017 a 2020 foram usadas as projeções do FMI). A PPP é um método de comparar a renda per capita dos países em dólares, eliminando as diferenças de custo de vida entre eles, de forma que os números sejam realmente comparáveis.

Em 40 anos, o Brasil terá se distanciado dos Estados Unidos, cuja renda per capita deve cresce 92% naquele mesmo período (segundo o FMI), atingindo US$ 56,5 mil.

Serão, portanto (supondo que as projeções do FMI até 2020 sejam razoáveis), quatro décadas perdidas em termos de convergência do Brasil para a renda per capita do principal país avançado. Na verdade, nós não só ficamos parados, com recuamos em relação aos Estados Unidos, e substancialmente.

Tomando-se o exemplo do Chile, um país latino-americano de renda média como o Brasil, e percebido como praticante de políticas econômicas mais racionais ao longo das últimas décadas, o crescimento da renda per capita projetado para os mesmos 40 anos pelo FMI é de 194%, para US$ 23,5 mil. Em 1980, a renda per capita brasileira era 40% maior que a chilena. Em 2020, segundo o FMI, a do Chile será 61% maior que a brasileira.

Quando se fala do Leste asiático, aí é covardia, como muitos sabem. Em 1980, a renda per capita do Brasil era 220% da coreana e 15,5 vezes maior que a chinesa. Quarenta anos depois, de acordo com o FMI, a renda per capita da China será 22,5% maior que a do Brasil, e a da Coreia será 64% maior. Em 2020, a renda per capita chinesa será 24 vezes maior do que em 1980, e a da Coreia será quase oito vezes maior. Apenas relembrando: no mesmo período, a renda per capita brasileira deve crescer 30%, segundo o FMI.

Quem chama atenção para esses números é Alexandre Bassoli, economista-chefe da área de gestão de recursos do grupo Opportunity, quando perguntado sobre as perspectivas econômicas do Brasil em 2018.

“A grande questão é saber se estamos num bom ano em meio a uma série de décadas perdidas ou se 2018 será o início de uma trajetória de crescimento sustentado”, diz Bassoli.

Ele acrescenta que nem é preciso recuar tanto no tempo para diagnosticar a patologia da economia brasileira. As mesmas séries do FMI mostram que em 2010 a renda per capita do Brasil, sempre medida com paridade de poder de compra, era de US$ 14, 6 mil, ou seja, praticamente a mesma que o Fundo projeta para 2020 – década perdida é exatamente isso aí.

A análise do cenário para 2018 de Bassoli não é muito diferente da visão compartilhada pela maioria dos analistas. Em termos conjunturais, o ano é bastante promissor. A economia e o mercado de trabalho vêm se recuperando, de forma não muito veloz, mas paulatina. O estímulo monetário proporcionado pela Selic em recorde de baixa ainda está se desdobrando e intensificando.

Por outro lado, a capacidade ociosa ainda é muito elevada, o que dá amplo espaço para a economia se aquecer sem pressionar a inflação, em nível historicamente baixo, e as contas externas, sólidas como há muito tempo não se via.

Em termos do cenário internacional, há uma recuperação sincronizada das economias ricas, que estimula o comércio global e tem dado sustentação às commodities, junto com a continuidade do crescimento chinês. A boa notícia em 2017 é que o crescimento, especialmente nos Estados Unidos, não acelerou a inflação, que, pelo contrário, ficou abaixo do esperado.

A se manter esse ambiente global de crescimento e juros baixos, é céu de brigadeiro para o Brasil. Alguma inflação pode ressurgir e os juros saírem do nível atual ainda extremamente baixo, mas desde que o processo seja gradativo (e por enquanto não há muito alarme de que possa não ser), o cenário externo deve no mínimo não representar um problema para o Brasil e, na melhor das hipóteses, continuar como um ótimo vento a favor.

Efeitos da incerteza

E então entra a história fiscal. A situação não só não foi resolvida, como se agravou em relação ao que esta própria equipe econômica projetava quando entrou no governo. Bassoli nota que a meta de déficit primário para 2018 foi aumentada duas vezes, saindo de déficit R$ 79 bilhões para déficit de R$ 159 bilhões.

Com a imprevisível eleição presidencial este ano, ninguém sabe se a racionalidade econômica será mantida em 2019 ou se vai mais uma vez para o espaço – como ocorreu tantas vezes nas quatro últimas décadas, quando o Brasil caiu para os últimos lugares da última divisão do desenvolvimento, como visto acima.

Essa incerteza – e não há nenhuma originalidade neste ponto – é a grande marca de 2018. Ela tem alguns impactos de curto prazo, afetando, por exemplo, o investimento. Este, depois de cair 30% na catastrófica recessão de 2014 a 2016, vem se recuperando muito lentamente, o que explica em parte porque esta é uma das retomadas pós-recessão mais lentas da história econômica brasileira.

A incerteza político-fiscal também pode ser observada na pronunciada inclinação da curva de juros, em que os de prazo mais longo não acompanharam a queda das taxas mais curtas, levadas para baixo pela Selic. Sinal de que os mercados enxergam possibilidade de aumento do risco, da inflação ou dos dois em horizontes mais compridos. Esses juros longos que insistem em não cair também são um freio ao investimento numa perspectiva mais imediata.

Ao fim e ao cabo, porém, o que importa, como bem colocou Bassoli, é a história de longo prazo. Foram 40 anos em que a renda que existe no Brasil para ser distribuída praticamente não cresceu, o que torna virtualmente impossível combater de forma eficaz e sustentável a miséria e a pobreza, criar um ambiente urbano e logístico digno para os mais carentes, sustentar um salto de qualidade na educação e na saúde pública, proteger o meio-ambiente, reduzir a epidemia de crimes e violência, etc.

A grande questão é se o legado da eleição de 2018 será a volta, enfim, do desenvolvimento socioeconômico, ou mais uma série de décadas perdidas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/1/18, terça-feira.

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