E se a volatilidade voltar?

Fernando Dantas

06 de agosto de 2014 | 17h26

A alta dos juros futuros e do dólar nessa terça-feira (5/8/14) chamou a atenção de alguns operadores, por ser simultânea a uma queda da rentabilidade dos títulos referenciais de dez anos do Tesouro norte-americano, que nesta tarde eram negociados abaixo de 2,5%.

Em meados do ano passado Ben Bernanke, ex-chairman do Federal Reserve (Fed, banco central americano), fez comentários pouco hábeis sobre o início do “tapering” (redução gradual da última rodada de injeção de liquides pelo BC nos EUA) que levaram a uma forte alta da rentabilidade do título de dez anos, criando tumulto nos mercados emergentes. Desde aquele momento, o padrão mais comum tem sido de que, quanto mais baixa seja a taxa dos “treasuries”, melhor para os ativos brasileiros e de outras economias do mundo em desenvolvimento.

Tomás Brisola, economista-chefe da BBM Investimentos, nota, porém, que a queda da rentabilidade dos títulos de dez anos pode ter duas dinâmicas distintas. A primeira, mais costumeira recentemente, está ligada a sinais de que a economia americana ainda não tem a sua recuperação 100% garantida, o que estende a perspectiva de manutenção das taxas de juros básicas do Fed, os Fed Funds, no nível atual de praticamente zero.

Assim, quando há poucos dias foi divulgado o crescimento anualizado de 4% do PIB americano no segundo trimestre, a rentabilidade dos treasuries teve uma alta rápida, já devolvida, causada pela perspectiva de que a fase de juros extremamente baixos pudesse ser encurtada.

Existe, porém, uma segunda dinâmica que pode reduzir a rentabilidade dos papéis longos do Tesouro americano, e que consiste num aumento disseminado da percepção de risco no mundo, que pode provocar o chamado “flight to quality”, ou “fuga para a qualidade”. Neste caso, os capitais fluem para os Estados Unidos em busca de segurança, o que tem o efeito de valorizar os papéis americanos mais demandados, derrubando sua rentabilidade.

Brisola nota que a grande liquidez internacional que prevaleceu no período recente está associada a uma forte queda da volatilidade e levou a uma atitude dos investidores perante os riscos que alguns analistas e instituições internacionais têm avaliado como pouco cuidadosa.

Mesmo Janet Yellen, atual chair do Fed, e que é a âncora daqueles que apostam na continuidade da alta liquidez (ela já enfatizou inúmeras vezes que não está com pressa em elevar os Fed Funds e descartou elevar a taxa básica para combater eventuais bolhas especulativas), recentemente indicou que a cotação de bônus de empresas de rating mais baixo pode estar exageradamente elevada.

Frisando que os sinais ainda são incipientes, o economista do BBM questiona se o comportamento dos mercados hoje e em dias recentes, com mais volatilidade do que o típico dos últimos meses, poderia ser um sinal inicial de mudança mais forte no ambiente financeiro internacional. Ele frisa que é cedo para saber.

Ainda assim, com mais volatilidade, as apostas na queda dos juros domesticamente – que vem sendo alimentadas pelo quadro de atividade cada vez pior – podem ser rebalanceadas. Para Brisola não se trata de uma mudança da direção da aposta. O mercado ainda acha que o juro vai para baixo, mas talvez a volatilidade muito reduzida tenha levado a um posicionamento excessivo, que agora está sendo reequilibrado.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/8/2014, terça-feira.

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