E se Dilma resistir?

Mercado tem dificuldade de precificar a probabilidade, ainda que minoritária, de derrota do impeachment. Na manhã da segunda-feira (4/3/16), Tiago Berriel, da gestora Pacífico e da PUC-Rio, estranhava a calma dos ativos. Porém, no mesmo dia bolsa e câmbio intensificaram pioras, talvez com preocupações na linha das manifestadas por Berriel.

Fernando Dantas

05 de abril de 2016 | 13h05

O mercado financeiro parece ter dificuldade de precificar a probabilidade de que o impeachment seja derrotado na Câmara. A maior parte dos analistas considera que esta hipótese é a menos provável, mas não resta a menor dúvida de que ela cresceu nos últimos dias. Havia expectativa de que PP, PR e PSD seguissem o PMDB depois que este saiu do governo.

“Houve uma decepção de não ter havido um efeito bola de neve depois do PMDB”, diz Tiago Berriel, economista-chefe da gestora Pacífico e professor da PUC-Rio.

Houve alguma reação do mercado a este e outros desapontamentos (como as ambiguidades intra-PMDB manifestadas após o desligamento do governo), e a Bolsa vem caindo do seu pico na quarta-feira passada. Porém, para alguns analistas, como Berriel, esse movimento não retrata a visão catastrófica que o mercado nutre em relação à permanência de Dilma Rousseff na presidência da República.

“O mercado está calmo, os preços estão tranquilos, parece que não houve nenhum desembarque da alta probabilidade de impeachment, é como se continuasse quase tão provável quanto no dia que o PMDB saiu”, ele comenta.

(a entrevista foi realizada na manhã da segunda-feira, 4/3/15 – a bolsa caiu bem mais à medida que o dia avançou, e o dólar subiu, talvez com o mercado reavaliando o risco de não impeachment na linha mencionada por Berriel)

De fato, há certa dissonância entre as previsões dramáticas que são feitas em caso de derrota do impeachment e a relativa calmaria. Diversos analistas comentam que o “cenário binário” está evoluindo na direção de um contraste cada vez maior entre suas duas alternativas. E isto não significa, de jeito nenhum, que as perspectivas de um governo Temer estejam melhorando – pelo contrário, se houve alguma mudança, foi para a pior. O que está se esfarelando em ritmo cada vez mais rápido, no entanto, é a ideia de que Dilma no poder tenha qualquer chance de encontrar uma saída para a crise.

“O cenário em que ela sobrevive está se tornando cada vez pior. Ele envolve uma negociação com a escória do Congresso, que talvez dê a ela as condições de sobreviver, mas não de governar. É uma negociação fisiológica, que tende a enfraquecer a capacidade e a disposição do governo de controlar gasto”, diz o economista-chefe de uma instituição financeira.

Para esse analista, as melhoras no setor externo e na inflação são dependentes do aprofundamento abissal da recessão. No segundo caso, também influenciou a apreciação do câmbio que ele julga que, mesmo sendo em grande parte motivada pelo cenário externo, não resistirá à perspectiva de deterioração contínua do desempenho fiscal do Brasil.

“A liquidez internacional aumenta a leniência, mas tem limite – não acho que o mundo vai alegremente financiar o Brasil com qualquer nível de déficit primário que nós queiramos fazer, é provável que isto venha a ser testado”, ele diz.

Berriel considera que a relativa tranquilidade do mercado pode advir do fato de que parece “mais racional” que os deputados aprovem o impeachment de Dilma. “A visão pode ser de que faz sentido para alguns partidos e políticos barganhar até o final, mas com um governo Temer haverá mais estabilidade e recessão menos extensa, o que significa um ‘excedente’ maior para os políticos que o apoiarem do que o que seria capaz de dar o governo Dilma”, raciocina.

Por outro lado, ele ressalva, o governo só precisa de 172 votos para derrotar o impeachment, o que aumenta as chances de Dilma. Além disso, o atendimento fisiológico das demandas dos deputados pode se dar em termos muito locais e específicos, o que poderia importar mais do que a visão mais ampla do parlamentar sobre seu potencial de ganhos num governo Dilma ou Temer. E este tipo de negociação muito no nível micro é algo que os analistas do mercado não têm como acompanhar, o que deixa a formulação de cenários políticos numa espécie de limbo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/4/16, segunda-feira.

 

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