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Economia ajuda, mas para quê?

Melhor perspectiva de retomada da economia é favorável a Bolsonaro, mas resta ver o que o presidente fará com esta oportunidade.

Fernando Dantas

09 de dezembro de 2019 | 14h20

Os analistas políticos não têm dúvida. A respirada da economia brasileira neste final de ano é uma boa notícia para o presidente Jair Bolsonaro.

Com a surpresa positiva do PIB do terceiro trimestre, as projeções de crescimento em 2020 estão subindo para perto de 2,5%, um ritmo aceitável na comparação com o desempenho econômico desastroso desde 2015.

E verdade que houve superestimações sistemáticas do crescimento às vésperas de cada ano durante esta lentíssima retomada. Mas as peças parecem mais encaixadas agora, inclusive porque a projeção para 2020 não é de um significativo avanço em relação ao ritmo deste final de ano, mas praticamente o de sua manutenção, com leve aceleração.

Entre outras coisas, como observa Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, o bom resultado do terceiro trimestre tirou o ministro da Economia, Paulo Guedes, do caminho da fogueira que com certeza viria para ele se a economia continuasse sistematicamente a só decepcionar.

O problema, porém, como sempre acontece no governo Bolsonaro, é o que será feito com a boa oportunidade proporcionada pela melhora da economia.

Após a vitória na reforma da Previdência, o governo jogou no colo do Congresso uma maçaroca de PECs, sem estabelecer de forma clara prioridades e estratégia, e ainda sem contar com uma base parlamentar estável.

Isso deixa Ribeiro bem mais cauteloso em relação ao sucesso da agenda pós-Previdência. Mas ele avalia, ainda assim, que “tudo o mais constante, a melhora da economia ajuda a agenda do governo”.

“Os políticos olham para a frente, anteveem um governo mais forte, e ficam menos avessos a se aproximar do presidente”, diz o analista da MCM.

Para outro experiente analista político, hoje no setor privado, “a economia cria uma arena para se construir uma boa agenda, mas ainda assim isto depende do governo, e o problema é que este governo tem uma coleção de boas oportunidades desperdiçadas”.

Por vezes, as oportunidades são aproveitadas por outros atores políticos fora do governo, como foi o caso do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que encampou a reforma da Previdência e foi decisivo para a sua aprovação.

A sorte de Bolsonaro, no entanto, na visão do analista, é que apenas uma elite, ligada nos detalhes do funcionamento do sistema político, diferencia entre, por exemplo, o papel de Maia e o de Bolsonaro na aprovação da reforma da Previdência.

Para a maioria da população, foi uma vitória conquistada pelo governo, independente de aprovarem ou não a medida. Da mesma forma, as boas consequências da aprovação da reforma da Previdência na economia são atribuídas à ação do governo.

No fundo, porém, o analista considera que é difícil compreender o governo Bolsonaro e projetar as suas ações com as “ferramentas analíticas” utilizadas para outros governos.

“O Bolsonaro traz uma nova gramática política, uma nova forma de exercer a presidência, o que mudou os papéis dos presidentes das Casas do Congresso, dos líderes de bancadas, dos ministros; mesmo com 2020 se iniciando de forma melhor do que se imaginava em termos econômicos, é muito difícil prever como vão se organizar as agendas do Executivo e do Legislativo nestes novos tempos”.

Ele conclui dizendo que o Brasil vive momentos de “darwinismo político”, e que “quem conseguir se adaptar melhor a esta nova gramática política vai conseguir fazer sua agenda avançar”.

Em relação ao risco de o sistema político se deixar levar pela complacência diante da prevista melhora econômica em 2020, e postergar a agenda de reformas, Ribeiro, da MCM, acha que ainda é prematuro se preocupar com isto.

“Se a economia crescer durante uns dois anos a 3%, 4%, aí sim esse risco se fortalece – por enquanto o que temos ainda é uma promessa de melhora”, ele diz.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/12/19, sexta-feira.

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