Economia melhora, Bolsonaro deteriora

A recuperação ganha qualidade, com destaque para investimentos, setor externo e até exportação de manufaturas. Mas melhora ainda não chegou ao mercado de trabalho, e dúvida é se há tempo de mudar mau humor do eleitorado até eleição do ano que vem.

Fernando Dantas

28 de junho de 2021 | 21h53

Ironicamente, Jair Bolsonaro atinge os seus piores níveis de popularidade e elegibilidade em 2022 exatamente quando a economia brasileira dá sinais de uma recuperação de boa qualidade.

As razões para esse contraste são conhecidas, e já foram abordadas nesta coluna. Na cadeia de transmissão do ciclo econômico, é típico que o mercado de trabalho seja o último a melhorar e também a piorar.

E, enquanto o desemprego não cai substancialmente e o mercado de trabalho não fica mais pressionado, –especialmente em relação às ocupações medianas e da parte debaixo da distribuição –, resultando em ganhos reais de renda, o mau humor do eleitorado, que também tem um componente inercial, não muda.

Isso leva ao quadro, muitas vezes caricaturalmente denunciado, em que “a economia está boa para os ricos, e ruim para os pobres”.

E, de fato, essa é a fotografia de um momento, em que os negócios começam a melhorar, mas a cadeia de transmissão ainda está longe de chegar ao fundo do mercado de trabalho.

Mas essa melhora é real, e potencialmente positiva para toda a população. Se não for interrompida por novas crises, que podem vir da política, da arena internacional ou da incompetência governamental, a engrenagem que de início torna as empresas mais otimistas vai resultar, lá na frente, em mudanças positivas no mercado de trabalho que acabam mudando o humor do eleitorado.

A grande questão no Brasil de hoje é saber se esses primeiros bons ventos econômicos vão se transformar numa bonança consistente; e, caso isso ocorra, se há tempo daqui até a eleição do próximo ano para que o humor do eleitorado mude, de tal forma a trazer de volta a competitividade de Bolsonaro.

São duas grandes interrogações, sobre as quais é extremamente difícil fazer previsões.

A qualidade da atual retomada econômica pode ser identificada em diversos aspectos. Os últimos resultados das Contas Nacionais indicaram um bom desempenho dos investimentos, uma variável chave do crescimento sustentável, que vinha tendo um comportamento sofrível no Brasil há vários anos.

Outra faceta positiva é o desempenho extremamente robusto da balança comercial brasileira, cujo saldo este ano deve ser recorde histórico. Esse resultado é fruto não só – e principalmente, – do choque favorável de termos de troca proporcionado pela alta das commodities, mas também de alguma reação de produtos manufaturados puxados pelo câmbio favorável.

De novo, o avanço da venda externa de manufaturados, mesmo longe de ser um fenômeno de grandes dimensões, é um tipo de melhora do qual a economia brasileira carecia há muitos anos.

E ocorre ainda a ebulição no mundo dos negócios propriamente dito. Como mostra reportagem de hoje no Estadão, de Luciana Dyniewicz e Renée Pereira, “o Brasil vive uma das maiores ondas de IPOs (oferta pública de ações, na sigla em inglês) da sua história”.

Evidentemente, ainda existem muitos problemas na economia brasileira. Nem se vai entrar aqui nos problemas estruturais fiscais e ligados à produtividade, cuja solução é dependente da agenda de reformas, sem a qual nenhuma retomada, por mais qualidade que tenha, vai colocar o País num platô de crescimento alto e duradouro.

Permanecendo na seara conjuntural, há de início o mercado de trabalho, que, se vem melhorando no lado formal, ainda tem desemprego altíssimo e uma taxa de participação que despencou com a pandemia e ainda está muito longe de voltar ao nível de antes do coronavírus.

E, obviamente, há a inflação, que pode chegar em breve ao redor de 9% em 12 meses, que deve estourar de longe o teto de tolerância este ano e furar a meta também em 2022.

Aqui, porém, há uma ressalva positiva a fazer. O choque de alta de preços no atacado associado à depreciação do real (que recentemente começou a se reverter) foi de uma brutalidade inaudita para a gestão do sistema de metas.

É como um teste de estresse extremo e, até aqui, pelo menos, o sistema resistiu. A Selic está prevista para subir até um nível em torno do eixo de 6% a 7%, o que é uma taxa civilizada sob qualquer ótica, e as expectativas inflacionárias de mais longo prazo não explodiram.

Essa situação sob controle, que hoje está “naturalizada” pela sociedade e pelo mercado, seria absolutamente impensável no Brasil de pouco tempo atrás diante de um choque de tamanha proporção.

Tomando-se todos esses fatores, os sinais são de uma retomada saudável da economia. Os riscos de descarrilamento, como já mencionado, existem. Para além do cenário externo, sempre se pode contar com Bolsonaro para dar tiros no próprio pé na arena política (principalmente) e econômica.

O timing do humor do eleitorado é ainda mais difícil de prever. A tentação perigosa para o governo é fazer populismo barato com recursos escassos, e sob alto risco de provocar turbulência macroeconômica, na tentativa desesperada de recuperar a popularidade de Bolsonaro e a sua competitividade com Lula.

A escolha mais sensata seria apostar todas as fichas em gerir tão bem quanto possível a atual melhora econômica, já que ainda faltam 15 meses para a eleição e esse tempo pode ser suficiente – não é garantido, mas que há de se fazer? – para melhorar o humor do eleitorado.

Porém, como sensatez e boa gestão não são conceitos que combinem com o bolsonarismo, é melhor já apertar o cinto de segurança preventivamente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/6/2021, segunda-feira.

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