Economia racional versus política irracional

Mercado deu uma trégua para a equipe econômica, mas radicais do governo estão completamente indiferentes à sorte da economia e insistem em polarizar o País e aumentar a incerteza.

Fernando Dantas

23 de maio de 2019 | 23h08

Os mercados estão dando uma trégua a Bolsonaro nos últimos dias, mas a ala radical do seu governo não está nem aí. A bolsa se recuperou (na quarta-feira, 225, quando a coluna foi escrita, caía levemente quando este texto era redigido), o dólar voltou para próximo de R$ 4 e a curva de juros recuou.

O movimento provavelmente combina melhora externa (apetite de risco) e a noção de que, de forma muito confusa, “la nave va” internamente, com a disposição do Centrão de votar a MP da reforma administrativa – mas como nada é linear neste governo, anuncia-se uma “ruptura” entre Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e o Major Vitor Hugo (PSL-GO), líder do governo na Casa.

Inteiramente indiferentes às oscilações do mercado e às ameaças de volta da recessão, ou mesmo à periclitante popularidade presidencial, elementos radicais do governo ‘de facto’, como o filho “03”, o deputado federal (PSL-SP) Eduardo Bolsonaro, trabalham incessantemente para atiçar a polarização do País. Parece haver um esforço deliberado para tornar o bolsonarismo inconciliável com o centro moderado e minimamente preocupado com valores democráticos e humanistas.

Em ‘tuíte’ expedido ontem (terça-feira, 21/5), Eduardo anuncia que em breve divulgará a “sensacional conversa” que teve com a Sra. Joseíta Ustra, viúva do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O coronel foi condenado em primeira instância por tortura durante a ditadura militar, mas recentemente o processo foi extinto pela Justiça de São Paulo, por prescrição da ação. De qualquer forma, tornou-se um símbolo da tortura, e reavivar sua memória é uma provocação direta e violenta não só aos movimentos clandestinos que foram combatidos pela ditadura, mas a todos os cidadãos que se importam com o Estado de Direito.

Para não deixar dúvidas sobre aonde quer chegar, Eduardo em outro tuíte recente declarou que “vivemos numa guerra cultural e isto é a raiz de todos os problemas. Negar isso é negar a realidade ou demonstrar total ignorância sobre o cenário em que vivemos. Se quiser abrir seus olhos siga, veja os vídeos e leia Olavo de Carvalho”.

Esse clima de “guerra cultural” é o mote das manifestações programadas por bolsonaristas para o próximo domingo. O presidente teve o mínimo de bom senso de afastar-se – e a membros do governo – protocolarmente do movimento e dos ataques prometidos contra os outros Poderes, parte do conluio de “forças ocultas” que a narrativa dos radicais afirma haver contra a pureza das intenções e ações de Jair Bolsonaro.

Mas essa neutralidade oficial em relação à manifestação é muito pouco. É bem sabido, desde os anos 30 do século passado, que líderes autoritários populistas gostam de manipular os limites entre o que seriam manifestações espontâneas das “massas” e ações oficiais do governo, de modo a se equilibrar entre a aparência de respeito às instituições e ações para intimidar e acuar adversários e outros Poderes.

Não se está dizendo que Bolsonaro chegou a esse ponto, nem que o Brasil tenha instituições precárias que possibilitem uma estratégia autoritária desse tipo. Mas se o presidente quisesse de forma não ambígua certificar suas credenciais democráticas, teria contido no nascedouro a espiral de radicalização que foi desembocar na convocação da manifestação de domingo.

Paulo Guedes, o ministro da Fazenda, costuma bater no ponto de que Bolsonaro não representa ameaça à democracia, mas tão somente uma opção do eleitorado por um presidente mais à direita, depois de 30 anos de “socialdemocracia” do PSDB e do PT.

É compreensível a preocupação de Guedes. A agenda de radicalização só atrapalha a economia e pode pôr a pique a mais completa plataforma de liberalização econômica desde a redemocratização.

O problema é que a polarização patrocinada pela ala radical do governo aumenta a incerteza sobre a reforma da Previdência, assusta os investidores, amplia as chances de a retomada manca se metamorfosear em recessão – o que por sua vez mina a popularidade presidencial, piora o prognóstico da reforma, etc., num círculo vicioso.

A esta altura, parece cada vez mais claro que a “voz da razão” das alas moderadas e realistas do governo Bolsonaro não tem qualquer poder de influência sobre os radicais. O destino do governo, portanto, depende do “deus-dará” das interações entre ações racionais na economia e irracionais na política, ao sabor das peripécias da vida política e cívica nacional e dos choques externos. Se der certo será uma sorte danada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/5/19, quarta-feira.

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