Economia sumiu de vez do debate

Fernando Dantas

17 de setembro de 2010 | 18h59

O Brasil atravessa uma das melhores fases econômicas das últimas décadas, o que o governo e sua candidata souberam vender muito bem na campanha eleitoral  – esta é, sem sombra de dúvida, a razão pela qual Dilma Rousseff lidera disparado as pesquisas, e tem boas chances de vencer no primeiro turno.

Mas os bons ventos econômicos não significam que o País “graduou-se” definitivamente, e que, daqui por diante, é só tocar com a barriga até o dia sonhado em que completaremos a convergência para o padrão sócio-econômico dos países desenvolvidos.

Há imensos problemas pela frente, e o próximo governo, mais do que qualquer outro desde a redemocratização, vai ter que desenhar e implementar uma estratégia de longo prazo de sustentação do crescimento. A razão para isso é simples: quando há crises, e uma série de pendências emergenciais, a função do governo é apagar incêndios, aplicar remédios, evitar desastres. É claro que, nesse processo, que o Brasil viveu do final da década de 80 até 2003, um arcabouço institucional importantíssimo foi sendo construído: responsabilidade fiscal, controle da inflação, câmbio flutuante, políticas sociais distributivas, etc.

Quando tudo está bem, no entanto, o esforço formulador tem de ser ainda maior. Pensando bem, quase todas aquelas conquistas institucionais, mencionadas no parágrafo anterior, são básicas e consensuais, só sendo contestadas por radicais cuja importância em termos do debate econômico é cada vez menor. Grande parte da dificuldade dessa agenda recente foi de implementação, isto é, convencer a sociedade e os políticos de que, para que o País retomasse o desenvolvimento, era preciso colocar a casa em ordem.

Agora, o novo governo vai ter de quebrar a cabeça para saber, de fato, para onde quer levar o País. Abaixo, eu tento listar alguns pontos de uma nova agenda muito menos óbvia e consensual:

Câmbio e inserção internacional – O País vai seguir o caminho de acumular déficits em conta corrente para ampliar os investimentos, o que significa aceitar as oscilações do câmbio flutuante, mesmo quando elas valorizam a moeda nacional mais do que gostaria o setor industrial e seus defensores?

Petróleo – Ligada ao item acima, a pergunta é sobre como o Brasil vai lidar com os riscos da chamada “maldição do petróleo”, pela qual a hipertrofia da atividade petroleira leva não só ao enfraquecimento de outros setores da economia, mas também à concentração excessiva do poder político.

Educação – Se o Brasil quer ser mais do que um exportador de commodities, e competir também na arena industrial, é fundamental recuperar o monumental atraso educacional em relação aos nossos competidores, especialmente do Leste asiático. Melhorar a educação, porém, é meio como buscar a cura do câncer. Todo mundo é a favor, mas o x da questão é como fazer. Há muitos caminhos e ideias diferentes a seguir, e não há sinal de que estejam sendo debatidos a sério no Brasil.

Tecnologia – Quase o mesmo que eu disse sobre a educação pode ser repetido para a tecnologia. Não dá nem para pensar em competir nos setores industriais mais avançados sem aumentar muitíssimo a densidade tecnológica das nossas empresas e da sociedade em geral. A gente já sabe das histórias de quem consegue chegar lá, as Embraer da vida, mas, se a ideia é disseminar esses sucessos, a tarefa à frente é enorme. De novo, há uma grande diversidade de ideias sobre como fazê-lo, mas não se assiste propriamente a um debate nacional sobre o tema.

Infraestrutra – Aqui entra uma questão que vem sendo martelada por Marcos Lisboa, ex-assessor de Palocci na Fazenda e agora no Itaú-Unibanco. O Brasil tem que criar regras racionais e pragmáticas sobre quem libera o quê, e quem fiscaliza o quê, em termos de projetos de infraestrutura. Não se trata, como algumas vezes parece ter sugerido o governo, de atropelar órgãos como o TCU e o Ibama, mas sim de dar lógica e funcionalidade ao processo, o que, por si só, garante a celeridade. Mas, de novo, é preciso reformar e redesenhar o sistema, o que envolve criatividade e lidar com interesses entranhados. É um absurdo, por exemplo, que o saneamento no Brasil avance a passos de tartaruga, por causa do emaranhado de alçadas e responsabilidades de municípios e Estados no setor.

Bem, eu mencionei apenas alguns temas que deverão estar na estratégia de desenvolvimento que o novo governo vai montar e que, dado o momento de decolagem pelo qual o Brasil está passando, necessariamente vai influenciar o País por décadas.

Nada disso, eu observo, está sendo discutido com um mínimo de profundidade na campanha eleitoral. Agora, com essa grande safra de escândalos – que devem ser divulgados, é claro, e que obviamente não têm como ser empurrados para os cantos do palco –, o pouco de discussão econômica séria que havia na campanha eleitoral desapareceu quase por completo. É pena.

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