Economista próximo ao PSDB aposta em Levy

Mansueto Almeida, do Ipea, foi um dos principais assessores de Aécio na campanha. Agora, ele diz que Joaquim Levy reúne a capacitação técnica e a habilidade política para fazer um bom trabalho como ministro da Fazenda de Dilma Rousseff.

Fernando Dantas

03 Dezembro 2014 | 14h54

“Algo de bom vai sair disso”. A frase é de Mansueto de Almeida, economista do Ipea, um dos maiores especialistas em contas públicas do País e assessor econômico do candidato derrotado Aécio Neves durante a campanha. Mansueto refere-se a Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda da vitoriosa Dilma Rousseff (ainda a ser empossado). O economista do Ipea não está dizendo que, com Levy, todos os complexos desafios do País serão vencidos, mas apenas que, com ele, será melhor do que sem ele.

Para Mansueto, Levy tem plena consciência das dificuldades de tocar uma agenda de ajuste fiscal e reequilíbrio macroeconômico num governo do PT, e reúne a capacitação técnica e a sensibilidade política para esta tarefa.

Ele lembra que Levy é um especialista não só em finanças federais mas também em finanças estaduais (foi secretário da Fazenda do Rio de Janeiro), e tem forte interlocução com o mercado financeiro, com o FMI e o establishment financeiro internacional e com as agências de rating.

Mansueto acha ainda que Levy de fato ganhou uma razoável autonomia para tocar a política econômica, mas sabe que o seu poder tende a ser decrescente, e que é preciso plantar bases sólidas para a sua concepção de política econômica num prazo relativamente curto de um ano e meio a dois.

O desafio inicial de Levy, para o assessor de Aécio na campanha, é mostrar para a presidente Dilma e para o núcleo do governo o tamanho real do problema fiscal. “Eu tenho a impressão de que a presidente acha que basta empatar o jogo para ganhar o campeonato, e o Joaquim terá de mostrar que, na verdade, é preciso vencer de três a zero”, resume Mansueto.

Nesse sentido, a cobertura crítica da imprensa sobre a política fiscal – que incomoda tanto aos atuais ministro da Fazenda, Guido Mantega, e secretário do Tesouro, Arno Augustin – só deve ajudar Levy a convencer Dilma e o governo de que a questão fiscal é mais grave do que julga a visão mais otimista.

Mansueto considera também que a meta de superávit primário de 1,2% do PIB para 2015 favorece o trabalho de Levy. O economista do Ipea considera este objetivo bastante difícil, dado o ponto de partida (as projeções são de saldo zerado em 2014, ou negativo quando se excluem as receitas não recorrentes). Uma meta puxada, a seu ver, será um suporte para que o ministro da Fazenda implante a reviravolta fiscal que está em seus planos.

Quanto à relação entre Levy e o novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa (também ainda a ser empossado), Mansueto prevê harmonia a curto prazo, já que ambos estão focados no ajuste fiscal.

Ele acha, porém, que Barbosa, com sua orientação mais heterodoxa, conta com uma retomada do investimento e do crescimento – por conta de um câmbio mais desvalorizado – mais prematura do que a enxergada por Levy. Assim, mais adiante, Mansueto acha que pode chegar o momento em que o titular da Fazenda considere necessária uma dose maior de austeridade do que o ministro do Planejamento, que passaria a contar com o crescimento para dar suporte à sustentabilidade das contas públicas.

Uma outra dúvida de Mansueto é em relação à agenda microeconômica, que ele considera que fatalmente terá de ser encampada por Levy, como consequência das próprias ações na esfera macroeconômica.

O economista do Ipea dá um exemplo. A necessária restrição ao expansionismo do BNDES (incluindo os repasses do Tesouro) é um ponto fundamental da agenda parafiscal que tem impacto direto sobre a dinâmica da dívida pública. O problema é que o BNDES financia hoje de 70% a 80% dos projetos de infraestrutura. Quando esta fonte minguar, será imprescindível mexer nas regras de concessão e do financiamento privado, incluindo aumentar a taxa de retorno dos projetos – temas espinhosos da agenda microeconômica.

Apesar das dificuldades à frente, Mansueto é positivo sobre as chances de sucesso de Levy: “Ele é muito motivado, é o tipo da pessoa que acorda entre 5 e 5:30 da manhã e já começa o dia trocando e-mails com um bando de gente – é um ótimo nome para encarar esse desafio”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/12/14, terça-feira.