Efeitos dos gargalos globais

Estudo do BIS analisa impactos no PIB e na inflação dos países dos problemas de oferta de matérias primas e insumos na saída da pandemia.

Fernando Dantas

16 de novembro de 2021 | 22h33

Os gargalos de oferta que estão restringindo a produção e pressionando a inflação em escala global estão concentrados principalmente em matérias primas, produtos intermediários e transporte de mercadorias.

O tema é abordado em estudo do BIS divulgado ontem (11/11), que analisa as implicações macroeconômicas globais dos gargalos de produção. Os autores são os economistas Daniel Rees and Phurichai Rungcharoenkitkul.

No caso das matérias primas (incluindo energéticas), eles notam que há particular volatilidade. Em alguns casos, os preços dispararam e depois recuaram fortemente, com aumento de oferta e/ou redução de demanda. Minério de ferro e madeira estão nessa categoria. Em outros setores, os preços ainda permanecem extremamente altos para padrões históricos, como carvão e gás natural na Europa.

No caso dos bens intermediários, o grande destaque em termos de gargalo são os semicondutores.

Os gargalos levaram à redução do ritmo ou à paralisação da produção de diversos bens no mundo todo, fazendo com que estoques de produtos como carros e móveis mergulhassem para baixas históricas, assim como os insumos ligados à geração de energia – o que por sua vez se reflete negativamente na produção de matérias primas e bens.

A pandemia causou gargalos por diversos meios. A relação entre empresas ofertantes e demandantes no meio das cadeias produtivas foi em muitos casos interrompida no auge da quarentena, com tentativas de retomada quando todo mundo estava fazendo o mesmo, com a demanda mais aquecida do que se previa. O caráter aleatório das novas quarentenas e surtos da Covid pós fase inicial da pandemia prejudicaram ainda mais qualquer tentativa de planejamento, incluindo os transportes.

Porém, segundo o estudo do BIS, também pesaram fatores extrapandemia nos gargalos, como eventos naturais e subinvestimento em commodities, especialmente petróleo, antes da Covid-19.

Os autores frisam que os gargalos não vieram só pela oferta, ressaltando o já bem conhecido desvio de consumo de serviços para bens na pandemia. A forte intensidade de capital na produção de muitos insumos industriais também fez com que a reação ao aumento da demanda fosse mais lenta.

Outros fatores mencionados foram a tentativa simultânea das empresas de aumentar estoques de insumos em antecipação à potencial falta do produto, que agravou e acelerou a escalada de gargalos; e a tendência das últimas décadas na direção de cadeias de oferta enxutas, privilegiando a eficiência em detrimento da resiliência.

Pelo lado positivo, o trabalho nota que gargalos persistentes são um incentivo à expansão de capacidade. Assim, da mesma forma como os gargalos persistem mais que o previsto, a solução do problema, quando se iniciar, pode ser um processo mais rápido que o antecipado.

Os economistas do BIS fazem a diferenciação entre gargalos em estágios mais iniciais das cadeias produtivas e nos estágios mais finais. No primeiro caso, os efeitos negativos na produção são mais fortes.

Com base numa matriz de insumo-produto global, estimam que a restrição na oferta de commodities de energia (bem no início da cadeia) e semicondutores (a 1/3 do caminho até o bem final) tem um impacto na produção de 3,5 a 4,5 vezes o tamanho do efeito da partida.

Uma contração de 10% na oferta global de semicondutores reduz o PIB global em 0,2 ponto porcentual (pp), mas o efeito pode ser maior por conta da tendência mencionada de os usuários desses produtos tentarem estocá-lo em antecipação à falta.

Eles citam projeção de um analista de que a produção mundial de automóveis pode ser subtraída em 2021 de 7,7 milhões de unidades pela falta de semicondutores, o que significa uma redução de 8% ante o nível pré-pandemia. Na Alemanha, em que a indústria automobilística é responsável por 8% do PIB, haveria uma perda de 0,5pp de PIB.

Em termos de inflação, finalmente, os economistas apontam que os gargalos em energia e na produção de automóveis elevaram a inflação nos Estados Unidos e na área do euro em, respectivamente, 2,8pp e 1,3pp.

Os autores ressalvam que, quando os preços relativos desses produtos tiverem subido o suficiente para ajustar a demanda e a oferta, a reversão desinflacionária pode ser bem rápida, pelo fim dos gargalos e da estocagem preventiva.

Mas o efeito inflacionário pode se tornar mais persistente em caso de “espirais salário-preço”. Isto é, se os salários e o poder de aumentar preços das empresas subirem simultaneamente, ao mesmo tempo em que a inflação globalizada reduz o efeito da competição internacional sobre os preços. Eles frisam que esse risco aumenta se as expectativas de inflação ficarem desancoradas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/11/2021, sexta-feira.