Einchegreen: crédito e trabalho barato na China estão no fim

Fernando Dantas

19 de julho de 2013 | 19h11

Em março de 2011, o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicou um artigo da série Project Syndicate, no qual afirmava que “uma desaceleração significativa da China é iminente”.

Há alguns dias, quando foram divulgados os números muito ruins do comércio exterior chinês, indicando que a desaceleração da potência asiática pode ser pior do que parece, vários analistas lembraram-se da previsão de Eichengreen.

No artigo de 2011, o economista mencionava um trabalho seu com o professor Kwanho Shin, da Universidade da Coreia, no qual, por meio do estudo de 39 episódios de desaceleração drástica em economias de rápido crescimento, eles identificavam uma espécie de momento mais provável da freada, por volta do nível de renda per capita de US$ 16,5 mil.

Pelas estimativas de Eichengreen, quando escreveu o artigo, a China atingiria aquele nível em 2014. Porém, por uma série de fatores, como envelhecimento, tamanho do setor manufatureiro e a própria política de desvalorização cambial, ele achava provável que a desaceleração viesse um pouco antes. Pode-se dizer, portanto, que Eichengreen praticamente acertou na mosca.

Por e-mail, preparando-se para um debate hoje em Boston com Ben Bernanke, chairman do Federal Reserve (Fed, banco central americano), e Paul Volcker, ex-chairman do Fed, Eichengreen respondeu algumas perguntas da coluna. O economista contribui com artigos exclusivos para o Estadão. A seguir, a entrevista:

O  sr. acha que os maus números de comércio exterior da China significam que a desaceleração que o sr.  previra está chegando?

A desaceleração significativa já aconteceu. O crescimento chinês desacelerou de 10% para a faixa de 7%. Será que a economia vai desacelerar ainda mais? O tempo dirá, como dizem. O que acontecerá de agora em diante vai depender tanto da política econômica quanto da sorte. Estou esperançoso de que uma combinação de boa sorte e boa política econômica segure o crescimento no intervalo de 6% a 7%.

Quais as causas da desaceleração chinesa?

O envelhecimento demográfico é um fator chave na desaceleração. Adicionalmente, a era de crédito barato e do trabalho barato acabou. O Banco do Povo da China (banco central, ou PBOC, na sigla em inglês, pela qual é conhecido internacionalmente) está começando a combater os excessos cometidos pelos bancos e empresas de investimento em termos de crédito. Já há relatos de falta de trabalhadores com habilidades específicas, e os salários têm subido drasticamente. A China está rapidamente se aproximando do pico em termos de proporção dos trabalhadores na indústria. O crescimento rápido por meio da elevação da produtividade no setor de serviços, a próxima etapa, é mais difícil.

A China teria caído da chamada “armadilha da renda média”, que seria a grande dificuldade de muitos países de continuar crescendo para além deste nível até se tornarem desenvolvidos?

Meu discurso preferido é de que a China está experimentando uma desaceleração de crescimento. Não é uma armadilha – eu resisto a usar esta terminologia de armadilha da renda média.

Qual a reação recomendável para as autoridades chinesas diante da atual situação?

Reprimir os excessos do mercado de crédito de forma drástica demais e de uma vez só pode causar problemas financeiros. O governo chinês e o PBOC sentiram o gosto disso mês passado, quando eles apertaram fortemente e as taxas interbancárias saltaram de 6% para 25%. O caminho tradicional chinês é o de se mover lentamente – atravessar o rio buscando as pedras. Isto é o que é preciso ser feito no caso atual.

Qual poderá ser o impacto da desaceleração chinesa para um exportador de commodities como o Brasil. O que o Brasil deveria fazer para amenizar o choque?

Tudo o que o Brasil pode fazer é continuar a diversificar suas exportações – tornar-se menos dependente das exportações de commodities e menos dependente da China. Desenvolver a capacidade de exportar manufaturas com alto conteúdo local requer investimentos em educação, infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, etc. É um projeto de longo prazo, enquanto a desaceleração da China vem como um choque de curto prazo.

A recuperação da economia americana é para valer desta vez?

A economia americana está melhor: todos os dados sobre residências, emprego, etc, apontam nesta direção. Mas “indo melhor” não é o mesmo que “indo bem”. Choques negativos – choques geopolíticos, um choque na zona do euro, um choque na China – ainda poderiam tirar dos trilhos o crescimento dos Estados Unidos.

Qual deve ser a ação do Fed (Federal Reserve, banco central americano) daqui em diante?

O Fed vai reduzir o ritmo da compra de títulos (de longo prazo em poder do público, o que coloca mais dólares em circulação) em algum momento, mas apenas quando o desemprego cair para 7%. Não estou convencido de que isto vai acontecer ainda este ano.

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

fernando.dantas@estadao.com

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