El Niño e inflação da comida

Bráulio Borges, da LCA e do Ibre, avalia que fenômento climático pode ter contribuído com quase 1 ponto porcentual para inflação de 2016.

Fernando Dantas

22 Setembro 2016 | 11h08

Muito se discute sobre o papel do choque de alimentos na inflação de 2016. Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, pesquisou este impacto com uma abordagem diferente, modelando os efeitos do fenômeno El Niño que atingiu o Brasil e outros países a partir de meados de 2015, e que hoje se encontra em dissipação. O exercício do economista aponta que 0,9 ponto porcentual (pp) da inflação de 2016 pode ser atribuído ao fenômeno El Niño.

O El Niño é um fenômeno meteorológico complexo marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico Oriental, especialmente na costa da América do Sul. Como já é bem sabido há décadas, o El Niño mexe fortemente com as condições climáticas em diversas partes do mundo, tanto em questões de temperatura como de regime chuvoso.

O fenômeno tem efeitos igualmente complexos sobre a agricultura brasileira, dependendo da região do País que se analisa. Nesta sua última manifestação, entretanto, o El Niño afetou a produtividade da soja e do milho e levou à quebra da safra de 2015, com efeitos danosos estendidos para este ano pelo endividamento, conforme recente entrevista de Endrigo Dalcin, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) ao Globo Rural.

Para realizar seu exercício, Borges começou por fazer um gráfico baseado na intensidade dos fenômenos El Niño e La Niña (resfriamento das águas do Pacífico Oriental), com base na classificação do Oceanic Niño Index (ONI) da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. As classificações são de neutro (nem El Niño nem La Ninã) e quatro categorias – fraco, moderado, forte e muito forte – que valem tanto para um quanto para outro fenômeno.

Dessa forma, o economista constatou que o El Niño de 2015 e 2016 está na categoria “muito forte”, que só ocorreu três vezes com este fenômeno desde 1950, quando começaram as medições. A última manifestação de um El Niño muito forte foi em 1997-98.

A partir daí, Borges utilizou um sistema de curvas de Philips desagregadas (para vários componentes dos preços no atacado e no varejo), do qual consta, além das variáveis explicativas tradicionais, como hiato do produto, câmbio, expectativas, etc., duas variáveis que dão conta da intensidade (incluindo nenhuma, evidentemente) dos fenômenos El Niño e La Niña.

A alta encontrada, por conta do El Niño, de 0,9 pp do IPCA esperado em 2016 (que será de 7,34%, segundo a última mediana do Focus) inclui o impacto direto sobre preços de alimentos e os indiretos, via choque de custos e indexação. Segundo Borges, o pico do efeito atingiu 1,8 pp no 12 meses até junho de 2016, quando a elevação do IPCA era de quase 9%.

A previsão dos meteorologistas é de que, entre o final de 2016 e meados de 2017, o clima global seja neutro em termos dos fenômenos El Niño e La Niña, ou de que haja um La Niña fraco. Borges explica que seus modelos apontam que a transição de um El Niño muito forte (2015/16) para um clima neutro tenderia a gerar uma desinflação do IPCA total de cerca de 0,9 pp entre 2016 e 2017, com tudo o mais constante. Já a transição de um El Niño muito forte para um La Niña fraco geraria uma desinflação de 0,5 pp do IPCA naquele mesmo horizonte. A explicação é que o La Niña também afeta negativamente a produtividade agrícola, mas de forma distinta do El Niño. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/9/16, segunda-feira.