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Eleição decisiva no apogeu da “recessão democrática”

Estudo mostra que insatisfação com a democracia está em nível recorde, especialmente nos países ricos. Muitos analistas veem o fenômeno Trump como sintoma e causa da malaise política que se abate sobre os países democráticos.

Fernando Dantas

03 de novembro de 2020 | 23h17

No dia em que todos os olhos do mundo se voltam para os Estados Unidos e a decisiva escolha entre Donald Trump e Joe Biden, é relevante notar que a insatisfação com a democracia está perto de um pico recorde, especialmente no mundo desenvolvido.

O resultado faz parte do relatório “Global Satisfaction with Democracy – 2020” (Satisfação Global com a Democracia – 2020)”, organizado pelo Bennet Institute for Public Policy da Universidade de Cambridge, e faz parte das atividades do novo Centro para o Futuro da Democracia.

A pesquisa utilizou uma nova base de dados com mais de 25 fontes, envolvendo 3,5 mil pesquisas de nível nacional com 4 milhões de respondentes entre 1973 e 2020. No caso da América Latina, a principal base de dados foi o Latinobarómetro. A investigação básica é sobre se os cidadãos estão ou não satisfeitos com a democracia nos seus países.

O momento para o resultado de insatisfação recorde é significativo. Trump, um populista de direita, é amplamente percebido como um risco à democracia norte-americana, pela tendência a dividir a sociedade entre aliados e inimigos, pelo desrespeito sistemático à verdade e pelo ataque contra várias instituições que formam o arcabouço democrático dos Estados Unidos – como o próprio processo eleitoral, cujos resultados o atual presidente norte-americano sinalizou diversas vezes que poderia contestar.

Por outro lado, a própria eleição de Trump e de outros populistas de direita, como Bolsonaro, ou de esquerda é vista como sinal de esgarçamento da democracia mundo afora.

Segundo o relatório, a proporção de cidadãos insatisfeitos com a democracia na América do Norte, América Latina, Europa, África, Oriente Médio, Ásia e Australásia subiu de 47,9% para 57,5% entre meados dos anos 90 e hoje.

É o nível mais alto da série que inclui todos os países, iniciada em 1995. No caso da Europa Ocidental, a série é mais longa, com quase 50 anos.

De acordo com o estudo, a “recessão democrática global” se iniciou em 2005, de forma abrupta, já que esse ano foi o pico da satisfação com a democracia (apenas 38,7% de insatisfeitos), que, daí em diante, caiu fortemente.

O relatório indica também que a queda na satisfação com a democracia foi liderada por alguns dos mais populosos países democráticos, como Estados Unidos, Nigéria, Brasil e México.

No caso do Brasil, o relatório aponta que a insatisfação com a democracia era de cerca de 75% em 1995 e permaneceu nesse patamar até os primeiros anos da década de 2000.

A partir daí, no governo Lula, a insatisfação começou a cair e, em 2007, pela primeira vez mais brasileiros se diziam satisfeitos do que insatisfeitos com a democracia. A partir de 2014, entretanto, a insatisfação voltou a crescer drasticamente, chegando em 2019 ao pico histórico, em torno de 80%.

Segundo os autores, corrupção, pobreza urbana e criminalidade impediram a democracia de ser satisfatória para a maioria dos brasileiros até meados dos anos 90. No governo Lula, no entanto, o boom de commodities permitiu uma política de inclusão com responsabilidade econômica que fez a satisfação com a democracia aumentar. A deterioração política e econômica a partir da operação Lava-Jato, para os autores, causou a nova reversão.

Já nos Estados Unidos, a insatisfação com a democracia subiu sistematicamente a partir da grande crise financeira global de 2008/2009, saindo de um patamar histórico de 25%, que vinha desde meados dos anos 90, para pouco mais de 50% atualmente.

O estudo aponto como causas da insatisfação norte-americana com a democracia a polarização política, os “shutdowns” do governo, as denúncias de uso de cargo público para ganhos privados, a guerra do Iraque e o aumento da desigualdade.

As boas notícias do relatório é que na Ásia, especialmente no Sudeste Asiático, a satisfação com a democracia está em nível elevado (nos países democráticos, claro). E também pequenos países ricos democráticos estão no nível mais alto de satisfação com a democracia da série, como Suíça, Dinamarca, Noruega, Holanda e Luxemburgo.

De qualquer forma, o quadro geral traçado pelo relatório é bastante preocupante. Uma vitória de Biden hoje certamente seria uma luz no fim do túnel da “recessão democrática global”, porque a presidência de Trump tanto é sintoma como causa da perda de fé das sociedades na democracia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/11/2020, terça-feira.

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