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Eleitores versus economistas

Luigi Zingales, economista da Universidade de Chicago, defende incluir "fricções políticas" nas análises de ganhos de bem-estar que os economistas fazem para recomendar políticas econômicas.

Fernando Dantas

08 de janeiro de 2020 | 10h45

Em apresentação no recém-realizado encontro anual da Allied Social Science Association (ASSA), fórum de ciências sociais oficialmente reconhecido pela American Economic Association (AEA), o conhecido economista Luigi Zingales, da Universidade de Chicago, fez uma pergunta provocativa: se os médicos seguem as vontades dos pacientes, por que os economistas não fazem o mesmo em relação à política econômica?

Ou, colocado de outra forma, por que os economistas inserem suas próprias preferências nos trabalhos que fazem sobre políticas econômicas, se os consumidores e eleitores sabem o que é melhor para si?

Há uma série de explicações sobre por que políticas econômicas equivocadas acontecem num ambiente político democrático ou, na linguagem dos economistas, sobre a “economia política” das políticas econômicas erradas.

Há as teorias que culpam a estupidez dos eleitores e as que focam no “curtoprazismo” dos políticos. Como os eleitores não punem os políticos, seria preciso ter mecanismos que o façam, e de preferência não percebidos pela população.

Zingale recordou uma declaração do italiano Romano Prodi, presidente da Comissão Europeia na época do lançamento do euro, dizendo que a moeda única obrigaria os países europeus a introduzirem novos instrumentos de política econômica que eram impossíveis de propor politicamente. E que isso ocorreria quando houvesse uma crise.

Embora o economista concorde que falhas de política econômica possam derivar de decisões de eleitores e políticos, ele considera que nem sempre “a cura é melhor que o remédio”. Assim, haveria casos em que as preferências dos economistas são diferentes daquelas dos eleitores, e situações em que os próprios especialistas fazem escolhas erradas.

No primeiro caso, os economistas seriam, por exemplo, mais focados na eficiência (em oposição à distribuição) do que a média da população.

Zingales citou diversos temas em que a visão dos economistas difere muito daquela da população. 95% dos economistas acham que o NAFTA, acordo de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, beneficiou em média os cidadãos americanos, mas, entre a população, apenas 46% concordam com isso.

Só 12% dos economistas pensam que a campanha de “Buy-American” (para que os americanos prefiram produtos fabricados no país) pode aumentar o emprego na indústria manufatureira dos Estados Unidos, mas 76% da população acha que pode. E 93% dos economistas especializados no tema veem uma taxação extra da gasolina como uma forma melhor de reduzir a emissão de gás carbônico do que padrões de emissão obrigatórios para os carros. Já entre os americanos, só 23% concordam com essa tese.

Já na questão de erros de política econômica causados pelas escolhas dos próprios economistas, Zingales observa que pode haver “captura” dos economistas por determinados interesses: proposital, quando se tem em vista agradar potenciais empregadores, ou inconsciente, quando apenas economistas com determinadas crenças são escolhidos para determinadas funções.

O professor de Chicago também comenta os problemas do chamado “pensamento de grupo”  – senso de superioridade, especialmente quando o grupo se sente ameaçado, e ostracismo de quem pensa diferente.

Como possível solução para os problemas de calibragem entre poder político e recomendações técnicas, Zingales cita os “cinco princípios” de delegação de poder a agências especializadas, elaborados por Paul Tucker, ex-vice presidente do Banco da Inglaterra (banco central). Tucker é autor do livro “Unelected Power: The Quest for Legitimacy in Central Banking and the Regulatory State” (“Poder Não Eleito: A Busca pela Legitimidade em Bancos Centrais e no Estado Regulador”).

Os cinco princípios são propósito claro, procedimentos claros, princípios operacionais claros, transparência e responsabilização (“accountability”) suficientes e um mecanismo claro para limitar o poder dos especialistas em situações de emergência.

Em relação à própria comunidade acadêmica dos economistas, Zingales propõe reincorporar a Economia nas ciências sociais. A ideia é “historicizar, sociologizar e politizar” a pesquisa econômica.

Outra frente é o que o economista chama análise de economia política do bem-estar. Em vez de justificar intervenções de política econômica arbitrárias em problemas causados por escolhas políticas, ele defende uma “análise de bem-estar factível”, que já incorpore as fricções presentes no processo político.

Zingales conclui com a observação de que ignorar os aspectos distributivos da economia, cruciais na democracia, pode transformar os economistas em “idiotas úteis” ou em porta-vozes de interesses velados.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/1/20, segunda-feira.

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