Em busca de emprego

Desalentados estão voltando à força de trabalho, mas nem todos conseguem emprego.

Fernando Dantas

02 de dezembro de 2019 | 12h05

A Pnad Contínua referente ao trimestre terminado em outubro, que indicou taxa de desemprego de 11,6%, veio em linha com a mediana dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, mas ainda não dá para animar.

Como observa o economista Daniel Duque, da EPGE/FGV, especializado em mercado de trabalho, chamou a atenção que o número absoluto de desempregados, pela primeira vez em vários meses, teve uma elevação, ainda que muito leve. Foram 12,367 milhões de desempregados de agosto, setembro e outubro de 2019, comparados a 12,309 milhões no mesmo período de 2018.

A taxa de desemprego caiu, entre os dois mesmos períodos, 0,1 ponto porcentual – de 11,7% para 11,6%. É muito pouco para caracterizar uma boa recuperação do mercado de trabalho.

A boa notícia é que a população ocupada continua aumentando, tendo saído de 104,928 milhões no trimestre até outubro de 2018 para 10,6,421 milhões no mesmo período de 2019, um aumento de 1,6%.

Mas como o desemprego teve ligeiro aumento, isso mostra que nem todos que estão engrossando a força de trabalho estão conseguindo emprego.

Sempre na mesma base de comparação, houve queda de 1,6% das pessoas desalentadas (que desistiram de procurar emprego) e alta moderada, de 0,9%, nas subocupadas, que não trabalham em regime integral e gostariam de trabalhar mais horas por dia.

Segundo Duque, “o número de desalentados e subocupados ficou no zero a zero, e em relação à população adulta diminuiu”.

Ele vê um quadro de migração de desalentados para a força de trabalho, mas no qual possivelmente estes entrantes tiveram, no trimestre terminado em outubro, mais dificuldade em conseguir emprego – daí a muito lenta queda da taxa de desemprego, e até um pequeno aumento do número absoluto de desempregados.

Duque vê a volta de desalentados ao mercado de trabalho como ligada à uma melhor percepção sobre a capacidade de conseguir emprego, já que buscar trabalho não é uma atividade sem custo – a pessoa tem que se locomover etc. Se isso é um bom sinal, por outro lado o fato de nem todos que estão em busca de emprego estejam conseguindo postos é preocupante.

Em termos de composição do mercado de trabalho, o dinamismo continua a vir dos trabalhadores por conta própria (+3,9%), dos quais a maioria não tem CNPJ, sendo os típicos trabalhadores informais. Os conta própria sem CNPJ tiveram elevação de 2,9% entre os trimestres até outubro de 2019 e 2018. Já os empregadores do setor privado com carteira cresceram a um ritmo inferior, de 1%.

A renda média do trabalho habitual atingiu R$ 2,317 no trimestre até outubro de 2019, com uma alta muito pequena, de 0,8% (praticamente estabilidade), ante o mesmo período de 2018.

Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Bank, vê tênues sinais de melhora no mercado de trabalho refletidas nos dados de hoje da PNADC e também nas últimas divulgações do emprego formal do Caged.

Ele nota, contudo, que o mercado de trabalho ainda freia a economia. Tanto que o segmento de bens duráveis, que dependem mais do crédito (com taxas de juros em queda) está indo melhor, com destaque para automóveis. Já os bens semiduráveis e não duráveis, mais ligados à renda, registram uma recuperação mais incipiente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/11/19, sexta-feira.

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