Em Davos, qual Bolsonaro?

Presidente tem um trunfo para exibir no Fórum Econômico Mundial: o discurso apaixonadamente liberal de Paulo Guedes na economia. Mas ideias antiglobalistas bizarras de Ernesto Araújo, chefe do Itamaraty, e posturas sobre meio ambiente, índios e minorias podem estragar a festa.

Fernando Dantas

15 de janeiro de 2019 | 09h47

O presidente Jair Bolsonaro terá uma oportunidade de ouro, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, dos dias 22 a 25 de janeiro, de indicar ao mundo qual corrente do seu governo vai prevalecer: os pragmáticos, que reúnem a equipe econômica e os militares, ou os ideológicos, que tomaram conta do Ministério da Educação, das Relações Exteriores e da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Davos é tradicionalmente uma boa caixa de ressonância para que chefes de Estado recém-chegados ao poder em países problemáticos transmitam a sua mensagem sobre por que a comunidade financeira, econômica e política internacional deve confiar em seus planos.

Lula, que foi ao Fórum Mundial duas vezes e cancelou uma terceira por problema de saúde à última hora, beneficiou-se da boa receptividade ao seu discurso de crescimento econômico com foco nos avanços sociais. Dilma Rousseff também foi bem acolhida e ouvida com interesse e respeito por empresários, banqueiros e jornalistas da elite global, embora com menos sucesso em vender sua mensagem.

Em 2016, foi a vez de a Argentina dar o seu show em Davos, com o recém-empossado presidente Mauricio Macri, e os então ministro das Finanças, Alfonso Prat-Gay e presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger. O establishment internacional ficou encantado com os planos liberais e ortodoxos do novo governo argentino, depois dos anos de populismo com o casal Kirchner.

Em todos esses casos, ficou claro que fazer bonito em Davos não é suficiente para que um país retome a trajetória de crescimento sustentável. Lula, Dilma, e Macri criaram problemas para si próprios, em diferentes níveis e contextos, e Brasil e Argentina ainda penam na estagnação econômica.

De qualquer forma, o desempenho em Davos ajudou pelo menos a que os dois países (e muitos outros) tivessem usufruído de momentos de “benefício da dúvida” por parte dos investidores internacionais, que talvez pudessem ter levado a melhores resultados se de fato os compromissos de trilhar políticas econômicas racionais tivessem sido cumpridos.

Bolsonaro irá a Davos num momento particularmente favorável, comparado com os exemplos acima. Os mercados dos ativos brasileiros têm se comportado de forma extremamente favorável desde que sua eleição se consolidou como grande favorita (movimento reforçado pela vitória em si), com grande alta da Bolsa, valorização do real e intensa queda dos juros de mercado.

Todos sabem que o Brasil tem o calcanhar-de-aquiles fiscal, mas há otimismo em relação à aprovação de uma reforma da Previdência significativa este ano, o que será um grande passo na direção de reestabelecer a solvência pública de médio e longo prazo.

Finalmente, seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes, é um orador eloquente que prega com entusiasmo ímpar a agenda que é música para os ouvidos do chamado “Davos man”: economia de mercado, privatização, desregulamentação, contenção do Estado, abertura comercial, etc.

A faca e o queijo, portanto, estão à disposição de Bolsonaro para prestar um favor a si mesmo e ao País, vendendo a ideia à elite econômica do planeta de que o Brasil é um ótimo lugar no qual investir e fazer negócios.

Existe, entretanto, grandes riscos. Está na comitiva também o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cujo discurso antiglobalista e a favor de governos autoritários é extremamente repelente – e com boa razão – para o establishment liberal (no sentido econômico e político) reunido em Davos.

O chanceler brasileiro que, em artigo para o público de profissionais de mercado e do mundo de negócios da Bloomberg, fez questão de passar a informação insólita de que não gosta do falecido filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein – e que vem sendo ridicularizado por isto –, pode atrair para sua pregação bizarramente ideológica a atenção (negativa, no seu caso específico) que poderia ser reservada à vibrante visão de Guedes de um Brasil que resolveu priorizar a economia de mercado para voltar a crescer de forma sustentada.

Adicionalmente, Bolsonaro e todos os membros da sua comitiva ao Fórum devem ser cobrados sobre temas em relação aos quais Bolsonaro emitiu sinais negativos para a elite “globalista” e politicamente correta de Davos: meio ambiente, índios, minorias, etc.

Está nas mãos de Bolsonaro arbitrar a competição entre as vertentes do seu governo. Não lhe será difícil ordenar discrição e sobriedade a Araújo na sua participação no Fórum de Davos, de tal forma que a mensagem básica da delegação brasileira seja a de Guedes, apropriada para um encontro cujo tema principal é a economia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/1/19, segunda-feira.