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Em defesa da porta aberta

Corrente de analistas não vê razão para o Banco Central relutar em dar seguimento aos cortes da Selic. A coluna foi publicada antes da decisão e comunicado do Copom de ontem, 17/6, quarta-feira. O BC optou por solução salomônica, deixando porta entreaberta.

Fernando Dantas

18 de junho de 2020 | 10h20

Uma parcela de 52 das 54 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast vê o Copom cortando hoje a Selic em 0,75 ponto porcentual, para 2,25% ao ano. Portanto, salvo uma grande surpresa, o que está em discussão é que tipo de mensagem o Banco Central vai tentar passar em seu comunicado pós-reunião. Uma eventual decisão não unânime também seria uma surpresa, pois não ocorre há muito tempo.

Na última ata, da reunião de maio, o Copom afirmou que considerava, para a reunião de junho, que termina hoje, “um último ajuste, não maior do que o atual, para complementar o grau de estímulo necessário como reação às consequências econômicas da pandemia da Covid-19”.

O último relatório Focus coloca a Selic a 2,25% no final deste ano, o que mostra que a mensagem da ata está sendo levada a sério. Na projeção dos Top Five de curto prazo, porém, a Selic apontada para o fim do ano é de 1,75%, o que indica que o “último ajuste” da ata de maio, por outro lado, não é visto como escritura sagrada.

Na verdade, uma corrente de analistas é bastante crítica à relutância do Banco Central em deixar a porta explicitamente aberta para novos cortes da Selic, além daquele previsto para hoje.

Ricardo Barboza, mestre em Macroeconomia pela PUC-Rio e professor da Coppead/UFRJ/Alumni, em artigo publicado hoje no Blog do Ibre, nota que o mercado prevê, com a Selic se mantendo a 2,25% até o fim do ano, um IPCA de 3% em 2021, bem abaixo da meta de 3,75%.

Simultaneamente, levando-se em conta as projeções de PIB do Banco Mundial para o Brasil (queda de 8% este ano e expansão de 2,2% em 2021), a economia brasileira “com sorte” regressará apenas em 2023 ao nível de produção de 2013.

Levando em conta, portanto, a intensidade e o longo tempo de permanência dos recursos ociosos na economia brasileira, e as perspectivas de inflação ancoradas abaixo da meta, não há razão, no entender do economista, para estabelecer qualquer limite maior que zero para a queda da Selic.

O economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, e que jamais foi considerado heterodoxo por ninguém, tampouco vê razão para que o BC estabeleça limites para a queda da Selic na atual conjuntura.

Com a sua ironia habitual, Schwartsman intitula seu mais recente artigo para a Infomoney de “A Selic no País das Maravilhas”. A alusão fantasiosa, no caso, é ao argumento de que reduções da Selic abaixo de determinado nível, superior a zero, poderiam provocar movimentos de ativos – leia-se depreciação cambial – contraproducentes.

A desvalorização, por sua vez, poderia prejudicar balanços de empresas e deprimir a atividade econômica, ao invés de a estimular, como se objetiva com um corte da taxa básica.

Schwartsman mostrou em artigo recente, comentado neste espaço, que os ativos em moeda externa do setor privado são um pouco maiores que os passivos em moeda externa, e que, portanto, o argumento da desvalorização contracionista não faz sentido.

No seu artigo no Blog do Ibre, Barboza acrescenta que, na verdade, uma depreciação cambial adicional, em decorrência de mais quedas da Selic, seria “um dos canais para levar a inflação novamente para a meta (e não para distanciar a inflação ainda mais da meta)”.

Em resumo, o Copom vai redigir o seu comunicado da decisão de hoje tendo como pano de fundo um discurso muito bem concatenado por uma corrente de analistas (que incluis perfis bem diferentes) de que a porta não pode ficar fechada nem entreaberta, mas sim aberta e ponto final.

Uma possível forma de ver a questão (no caso, do próprio colunista) seria mudar a proposição.

Em vez de (o que parece ser a mensagem da última ata) “gostaríamos de parar, mas os próximos passos dependem da evolução da conjuntura”, algo como “a porta está aberta, mas a decisão de cortar ou não segue dependente da conjuntura”.

Essa, no entanto, seria uma reviravolta e tanto na comunicação do Copom, e é sabido que a autoridade monetária não gosta de ser percebida como volúvel.

(a coluna foi publicada antes da decisão do Copom de ontem, 17/6; o corte da Selic efetivamente foi de 0,75, e o comunicado sinalizou que “eventual” corte adicional será “residual”, adjetivo que o mercado vê como referente a 0,25 ponto porcentual)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/6/20, quarta-feira.

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