Emergentes perderam grau de investimento

Na média do rating das três principais agências, o conjunto dos países emergentes perdeu o grau de investimento entre o período anterior e posterior a crise global de 2007 a 2009. E o recuo do rating dos países ricos foi ainda maior.

Fernando Dantas

16 de dezembro de 2015 | 20h36

A média do rating de 69 países emergentes junto às três principais agências de classificação de risco saiu do primeiro nível de grau de investimento, antes da crise global de 2007/2009, para o nível logo abaixo do grau de investimento em outubro de 2015 – ou de BBB- para BB+. O dado está num recente estudo do Banco para Compensações Internacionais (BIS) sobre as mudanças de ratings no mundo rico e nos países emergentes entre o período anterior e posterior à crise global.

As três principais agências de rating são a Standard & Poor’s (S&P), a Moody’s e a Fitch. A S&P e a Fitch usam a mesma escala de rating, baseada nas letras A, B, C e D (em maiúsculo), que podem aparecer sozinhas ou repetidas duas ou três vezes, e ser seguidas dos sinais de + (mais), – (menos) ou de nenhum sinal. Já a escala da Moody’s tem símbolos diferentes, combinando as letras A, B e C nas grafias maiúscula e minúscula, e que podem ser seguidas dos números 1, 2 e 3. Apesar da diferença, cada degrau da Moody’s corresponde a um degrau da escala da S&P e da Fitch e, portanto, para simplificar, o estudo utiliza, para as médias das três, a escala destas duas últimas agências.

O trabalho, dos economistas Marlene Amstad e Frank Packer, mostra que a piora do rating médio de 28 países avançados entre os períodos anterior e posterior à crise foi maior do que a dos emergentes: de AA+ para AA-, o que corresponde a dois degraus. Já de BBB- para BB+, o recuo é de apenas um degrau, mas exatamente aquele que separa os ratings que têm grau de investimento dos que não têm.

O estudo mostra também que o grosso da piora dos ratings, especialmente dos países ricos, vem da Europa, em que a média dos primeiros saiu de AA+ para A+ (um recuo de três degraus).  O trabalho cita que o rating da Grécia despencou de A para CCC, e o da Itália, de AA- para BBB.

Nas Américas, por outro lado, tanto os países avançados quantos os emergentes mantiveram a média do rating nas três principais agências antes e depois da crise global: de, respectivamente, AAA e BB. O Brasil, como se sabe, é um dos países cuja classificação vem caindo, com perdas de rating e de grau de investimento recentemente (hoje, 16/12/15, a Fitch rebaixou o Brasil para BB+, o que significa a perda do grau de investimento – a S&P já havia dado este passo anteriormente).

O estudo nota que as mudanças de rating entre o pré e o pós-crise global refletem basicamente a evolução do quadro macroeconômico nos diversos países, mas também derivam em parte de alterações metodológicas, com mais dados quantitativos e mais atenção das agências a regimes de política monetária, internacionalização das moedas          e crescimento econômico (este último fator certamente pesou na piora do rating soberano brasileiro).

O trabalho também investiga a relação entre ratings e credit default swaps (CDS, um instrumento financeiro que é uma espécie de seguro de crédito, e funciona como termômetro de risco dos países). Algumas das principais conclusões são de que os CDS são bem mais voláteis que os ratings; no caso das economias emergentes, os CDS movem-se mais em conjunto do que os ratings; e recentemente os rebaixamentos de rating tenderam mais a seguir as altas dos CDS do que vice-versa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/12/15, terça-feira.