Emprego cresce, mas qualidade de postos ainda é problema

As divulgações desta semana do mercado de trabalho mostram avanços indiscutíveis, inclusive na formalização. Mas forte presença de trabalhadores por conta própria e queda da renda média preocupam.

Fernando Dantas

01 de outubro de 2021 | 11h17

As divulgações do Caged de agosto, ontem, e da PNADC de julho (trimestre até julho), hoje, mostraram uma melhora indiscutível do mercado de trabalho, que contrasta com o pessimismo reinante na economia.

‘Contrasta’, porém, não quer dizer ‘contradiz’. É bom lembrar que todo indicador econômico convencional é uma fotografia do passado, ainda que próximo. E, no presente, pairam sobre o Brasil uma série de ameaças econômicas, algumas já se concretizando.

De qualquer forma, uma notícia boa é sempre preferível a uma ruim. No Caged, houve criação de 372,3 mil vagas formais em agosto, bem acima da mediana das projeções, de 330 mil (Projeções Broadcast).

Na PNADC de julho, a taxa de desemprego, de 13,7%, veio exatamente no piso das estimativas do Projeções Broadcast.

O economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, especialista em mercado de trabalho do Ibre-FGV, destaca o avanço da formalização na PNADC de agosto.

Assim, o crescimento dos ocupados com carteira assinada – todas as comparações a seguir são com o trimestre encerrado em abril –, de 1,03 milhão, foi superior ao dos sem carteira, de 587 mil.

Esse avanço dos empregados com carteira pode, inclusive, começar a reduzir as discrepâncias entre a PNADC e o Caged. Esta segunda pesquisa veio mostrando uma evolução do emprego formal bem melhor do que a registrada pela PNADC no período pandêmico.

Evidentemente, a fotografia do mercado de trabalho, incluindo a formalização, ainda é ruim, como consequência da pandemia – o que Barbosa Filho deixa claro.

A força de trabalho no trimestre até julho, de 103,1 milhões, ainda é inferior ao nível em torno de 106 milhões pré-pandemia. A população ocupada (PO) de julho, de 89 milhões, é menor que os 93,7 milhões do trimestre até fevereiro de 2020, logo antes da pandemia. Não se está levando em conta a sazonalidade nessas comparações.

Mas um bom caminho já foi percorrido desde o trimestre de maio a junho de 2020, quando a força de trabalho foi de 95,2 milhões e a PO de 82 milhões. Em relação ao início deste ano, trimestre até fevereiro de 2021, com força de trabalho de 100,3 milhões e PO de 85,9 milhões, o crescimento até julho também foi robusto.

O economista Bruno Ottoni, pesquisador da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, acrescenta que, em relação ao trimestre terminado em abril, o avanço foi de 2,4 milhões na força de trabalho e de 3,1 milhões na PO.

“É um resultado forte para um espaço de tempo tão curto”, ele diz.

Barbosa Filho e Holanda, entretanto, também apontam as fragilidades da recuperação do mercado de trabalho. O salário médio está caindo, o que deriva da má qualidade dos empregos criados, mesmo diante dos primeiros sinais na PNADC de reação da formalidade.

Isso fica claro, diz Ottoni, no fato de que os 25,2 milhões de trabalhadores por conta própria no trimestre até julho, 76% dos quais sem CNPJ, formam o maior contingente dessa categoria da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/9/2021, quinta-feira.