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Emprego desacelera queda (ante 2019) em agosto

Segundo o especialista Daniel Duque, há sinais de recuperação no mercado de trabalho, mas ainda é cedo para alimentar otimismo.

Fernando Dantas

03 de novembro de 2020 | 11h28

Os dados mensalizados da Pnad Contínua (Pnad C) mostram que, em agosto, houve desaceleração generalizada da queda interanual (mês contra o mesmo mês do anterior) da população ocupada (PO).

O recuo da PO como um todo em agosto, em relação ao mesmo mês de 2019 (todos os números nesta coluna são nessa base de comparação) foi de 12,1%, um melhora relativa comparada à queda de 14,2% em julho, o pior mês da pandemia em termos de recuos interanuais da ocupação.

Na indústria, repetiu-se o mesmo padrão. Queda de 12,7% em agosto, comparada a 17,7% em julho. Na construção civil, a desaceleração do recuo foi ainda maior: 13,8% em agosto e 23% em julho. Nos serviços, agosto (-13,4%) também foi melhor que julho (-14,5%), mas o avanço relativo foi mais discreto.

Esses números estão em artigo de Paulo Peruchetti, Tiago Martins e Daniel Duque no Blog do Ibre, e utilizam uma metodologia do BC para mensalizar os dados da Pnad Contínua, que é uma série trimestral encadeada.

Duque, do Ibre/FGV e que está fazendo doutorado na Norwegian School of Economics, em Bergen, na Noruega, vê sinais de recuperação no mercado de trabalho brasileiro, mas ainda acha cedo para comemorar.

Um fato significativo é que a enorme discrepância entre os dados de emprego formal da Pnad e do Caged diminuiu em agosto, quando a primeira apontou uma recuperação de cerca de 500 mil postos (o Caged registrou criação líquida de 250 mil empregos com carteira assinada no mês).

Entre abril e julho, como nota Duque, a divergência entre as duas pesquisas foi “gigantesca”, com o Caged apontando dados sobre o emprego formal durante a pandemia muito melhores do que os registrados pela Pnad.

O pesquisador investigou o assunto, e encontrou algumas evidência de subnotificação de desligamentos no Caged, pelo fato que muitas empresas “hibernaram” durante o auge da pandemia, e assim não se deram trabalho de enviar informações ao sistema. A subnotificação de desligamentos, naturalmente, leva a saldos líquidos melhores.

Os dados recentemente divulgados da Pnad C de agosto e do Caged de setembro (313 mil vagas formais criadas liquidamente), na análise de Duque, convergem para mostrar um mercado de trabalho em alguma recuperação.

É verdade que o desemprego da Pnad C atingiu seu recorde histórico, de 14,4%, até um pouco maior que a projeção do Ibre, de 14,2%. Mas a diferença, segundo Duque, deu-se porque a força de trabalho (pessoas empregadas e procurando emprego) cresceu um pouco mais que o projetado. Isso, por sua vez, decorre do relaxamento do isolamento social, à medida que pessoas saem de casa para procurar trabalho.

Mas o analisa alerta que é cedo para ter otimismo em relação ao mercado de trabalho, que ainda está sendo artificialmente estimulado por programas como o auxílio emergencial (que injeta dinheiro na economia e empurra a demanda, o que cria empregos) e, diretamente, pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm, programa de suspensão e redução de jornada de trabalho, com reposição parcial pelo seguro-desemprego) e outras iniciativas do mesmo tipo.

“Nós só vamos descobrir o ‘novo normal’ do mercado de trabalho brasileiro a partir de janeiro”, conclui Duque.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/11/2020, sexta-feira.

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