Emprego formal pode melhorar em 2019

Os economistas José Márcio Camargo e Bruno Ottoni, especialistas em mercado de trabalho, estão mais otimistas em relação ao emprego formal em 2019. Ontem, Caged mostrou criação líquida de 530 mil vagas formais em 2018, primeiro resultado positivo em quatro anos. Mas economistas não sabem explicar por que a PNADC mostra um ritmo de criação de vagas formais bem inferior ao Caged.

Fernando Dantas

24 Janeiro 2019 | 09h28

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de dezembro, e do ano de 2018 fechado, reforçam a percepção de que o mercado de trabalho, assim como a economia, continua a trilhar a lenta e penosa recuperação de uma das maiores recessões da história brasileira.

O fechamento líquido de 334.462 vagas formais em dezembro está de acordo com a sazonalidade do mês, e veio abaixo da mediana das expectativas do Projeções Broadcast, de perda líquida de 430 mil. O principal é que o ano teve um saldo positivo de 529.554 vagas com carteira assinada, depois de o Brasil amargar perdas de 1,534 milhão, 1,326 milhão e 11.964 vagas formais em, respectivamente, 2015, 2016 e 2017, como mostra a reportagem ontem sobre o resultado do Caged de Eduardo Rodrigues, da Agência Estado.

O economista José Márcio Camargo, especialista em trabalho, vê o mercado em recuperação e projeta um período à frente de criação consistente de postos com carteira assinada, a reboque da retomada da economia em 2019, especialmente a partir do segundo trimestre deste ano.

Camargo, atualmente na Genial Investimentos, do grupo Brasil Plural, frisa que seu cenário é dependente da aprovação da reforma da Previdência.

“A economia está retomando, ainda que lentamente, e o desemprego (da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, PnadC) tem caído 0,6 ponto porcentual quando se compara com os mesmos trimestres do ano anterior”, ele diz.

O economista também considera que a reforma trabalhista já pode estar tendo algum efeito em termos de estímulo à criação de empregos formais.

Mas Camargo chama a atenção para uma “coisa curiosa” – a que outros analistas se referem como “puzzle” (quebra-cabeça) –, que é o fato de a PnadC mostrar em 2018 uma criação de emprego formal bem mais tépida do que o Caged.

De novembro de 2018 ao mesmo mês de 2019 (último dado divulgado da PnadC, que sempre se refere aos trimestres terminados em cada mês), registrou-se criação líquida de empregos formais de apenas 35 mil postos. Quando sair o número de 2018 fechado, este deve contrastar fortemente com a criação líquida de quase 530 mil vagas registrada pelo Caged.

Bruno Ottoni, economista da IDados, explica que a medida dos empregos formais da PnadC de novembro a novembro contém alguma imprecisão, porque não é feita a partir dos microdados, ainda não disponíveis. Por exemplo, todos os empregos do setor público são considerados formais, o que não é uma regra absoluta, e a soma exclui os empregados domésticos, parte dos quais tem carteira assinada.

De qualquer forma, a aproximação é razoável e o “puzzle” permanece – nem Camargo nem Ottoni têm uma explicação definitiva e completa para o fenômeno. Por um lado, é fato que as duas medidas são completamente distintas em termos de metodologia. O Caged é um registro administrativo feito pelas empresas e a PnadC é uma pesquisa amostral de domicílios. Ottoni acrescenta que o Caged não inclui a totalidade dos empregos formais. Ainda assim, são duas medidas bem-feitas de um universo igual ou muito parecido, e a grande divergência entre elas é difícil de entender.

Os dados da PnadC, em particular, apontam uma retomada do mercado de trabalho em 2018 muito dependente do emprego informal e da modalidade por conta própria, o que para alguns põe em xeque o fôlego da recuperação da economia brasileira.

Camargo tem uma visão mais otimista, e considera que, depois da monumental recessão de 2015 e 2016, é natural que empresas endividadas e escaldadas recomecem as contratações com um viés de informalidade. Ele acrescenta que muitos “conta própria” seriam mais adequadamente classificados como “pequenos empresários”, em vez de detentores de emprego informal – e vê inclusive a recente liberalização das regras de terceirização como uma das possíveis causas da ampliação desta categoria de trabalho.

Ottoni, que também é pesquisador associado do Ibre/FGV, está, como Camargo, relativamente otimista quanto à criação de empregos formais em 2019, em linha com a retomada da economia.

“A composição do mercado de trabalho deve melhorar em 2019, com um avanço proporcional dos empregos formais”, ele diz.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/1/19, terça-feira.