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Emprego não cresce, mas desemprego cai

Fernando Dantas

18 de abril de 2014 | 12h49

O mercado de trabalho brasileiro continua na sua firme trajetória de produzir recordes de desemprego e fatos surpreendentes para a maior parte dos analistas. Ontem (17/4/14, quinta), na divulgação da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de março, a história se repetiu e se aprofundou.

A taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas, que a pesquisa abrange, caiu para 5%, abaixo das expectativas do mercado e indo na direção contrária à sazonalidade, que indicaria pequena alta, como observa o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, em relatório divulgado sobre o tema.

Esse aperto ainda maior do mercado de trabalho, porém, não está ligado à criação de novos postos, que está praticamente parada na comparação de março ou do primeiro trimestre com os mesmos períodos de 2013.

Como vem acontecendo recentemente, a queda de desemprego deveu-se basicamente a uma redução ainda maior da taxa de participação, que é a proporção das pessoas em idade de trabalhar que efetivamente fazem parte da população economicamente ativa – isto é, que trabalha ou busca emprego.

Segundo o relatório de Schwartsman, a taxa de participação caiu 1,2% em relação a março de 2013, e 1,1% quando se compara o primeiro trimestre de 2014 com igual período do ano passado.

A combinação de estagnação do emprego com queda da taxa de participação – que reduz ainda mais o desemprego – aparentemente está dando algum suporte ao crescimento da renda. O rendimento de trabalho hoje se expande, em termos reais, a uma taxa bem mais baixa do que no final do governo Lula, mas recentemente tem havido sinais de estabilização nesse patamar positivo (ainda que inferior ao dos tempos de euforia), próximo a 2% no acumulado de 12 meses.

Assim, em termos das perspectivas eleitorais da presidente Dilma Rousseff, a queda da taxa de participação parece ser uma dádiva, já que sustenta o desemprego em baixa e a renda crescendo em termos reais. A desaceleração da população em idade de trabalhar, por questões demográficas, é também um fator da enigmática combinação de economia em marcha lenta e mercado de trabalho aquecido. Mas, por si só, não impediria hoje o aumento do desemprego, dada a estagnação da criação de postos de trabalho. É o encolhimento da taxa de participação que está dando o empurrão a mais para manter o mercado de trabalho como trunfo eleitoral de Dilma.

Olhando mais à frente, a questão da redução da taxa de participação levanta questões interessantes e relevantes. Schwartsman nota que é o tipo de variável que tende a reverter à sua média histórica, mais alta que o nível atual. Quando isso ocorrer, o desemprego deve subir, a não ser que volte a haver uma expressiva criação de postos de trabalho. Esta é a razão pela qual o economista e outros analistas mantém a previsão de que a taxa de desemprego deve subir em algum momento – não há sinais de dinamismo na economia que justifiquem prever uma melhora na criação de emprego, e a taxa de participação caiu demais e deve subir.

Naercio Menezes, economista do Insper, em São Paulo, que vem investigando a questão da queda da taxa de participação numa perspectiva mais longa, a vê como um fenômeno principalmente ligado aos jovens de baixa qualificação. É verdade, por um lado, que um contingente menor de jovens bem qualificados pode ter deixado o mercado de trabalho para estudar mais (inclusive com o apoio de programas como o Prouni e o Fies), o que é positivo. Mas o grosso do fenômeno seria explicado por aqueles que, pouco qualificados, não estão estudando nem trabalhando (apelidados de “nem-nem” pelos estudiosos do assunto).

E a razão pela qual jovens pouco qualificados estão ausentes do mercado de trabalho em grande quantidade, segundo Naercio, pode ser simplesmente o fato de que seus pais, normalmente também de baixa qualificação, formam um dos segmentos que teve ganhos reais mais expressivos no Brasil nos últimos anos.

Assim, menos forçados a trabalhar, porque a renda familiar aumentou, e pouco atraídos pela escola, onde frequentemente acumularam grandes atrasos, com boa parte não tendo ultrapassado o Fundamental, esses jovens pouco qualificados simplesmente saem do mercado de trabalho sem usar o tempo livre para aumentar seu capital humano.

Naercio considera essa situação perigosa. No momento em que houver de fato uma reversão mais brusca no mercado de trabalho que afete a renda dos pobres, esses jovens podem tentar ingressar no mercado de trabalho e fracassar, em função da sua baixa qualificação e falta de experiência. “É algo que inclusive pode aumentar a criminalidade”, alerta o economista.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada na AE-News/Broadcast, na quinta-feira, 17/4/14.

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