Emprego retoma, mas será suficiente?

Dados de emprego formal do Caged de novembro surpreendem para cima, mas há dúvida se recuperação do mercado de trabalho dará conta do fim em janeiro dos programas da pandemia de transferência de renda a famílias e apoio à manutenção do emprego.

Fernando Dantas

01 de janeiro de 2021 | 13h42

Mais uma vez, o Caged veio com surpresa positiva, nos dados divulgados hoje (a matéria foi publicada em 23/12) sobre novembro. Foram criados 414.556 postos de trabalho formal, acima não só da mediana das expectativas do Projeções Broadcast, de 279 mil, mas também do teto das projeções, de 380 mil.

José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos (Grupo Plural), no Rio, observa que, além de uma sequência de surpresas positivas no Caged, também a PNAD Covid vem apresentando resultados positivos desde outubro. Hoje foram divulgados os números da PNAD Covid de novembro.

“Vejo uma recuperação bem forte do mercado de trabalho, especialmente dos empregos com carteira assinada”, diz Camargo.

A grande questão, porém, é se a retomada do mercado trabalho será suficiente para segurar a economia no primeiro trimestre de 2021, quando esta sofrerá o baque do fim dos programas de apoio a famílias e empregos, sendo os principais, respectivamente, o auxílio emergencial e o BEm (suspensão do contrato de trabalho ou redução de jornada e salário, com substituição ou complementação da renda, em cada caso, via seguro desemprego).

O desemprego vai continuar subindo, nota Camargo, pois cerca de 10 milhões de brasileiros que saíram da força de trabalho por causa da pandemia (isto é, não trabalham nem buscam emprego) vão voltar à medida que a situação sanitária e econômica volte ao normal. Aproximadamente dois milhões já voltaram à força de trabalho, ele nota.

A taxa de desemprego deve subir dos atuais 14,2%, na PNAD Covid, até um intervalo entre 16% a 17% em meados do ano, segundo o economista. A partir daí, deve começar a cair.

Mas Camargo observa que esse aumento de emprego é mais um fenômeno estatístico, já que os 10 milhões fora da força de trabalho só estão nessa situação por causa do isolamento social e do fechamento de boa parte da economia, especialmente serviços, em função da pandemia.

Ou seja, não procuram emprego porque é arriscado ou nem adianta procurar, mas retornam à força de trabalho tão logo se sintam seguros e a economia reabra.

No primeiro trimestre, com a economia supostamente mais reaberta e o fim dos auxílios, esse contingente que saiu da força de trabalho por causa da pandemia deve retornar. Não só se sentirão mais seguros mas precisarão do dinheiro.

Segundo Camargo, setores da economia como indústria e comércio estão crescendo velozmente, e, no Caged, os serviços, que na pandemia são a ‘tartaruga’, tiveram um expressivo aumento líquido de postos formais em novembro, de 179.077.

Para o economista, “na trajetória em que segue o mercado de trabalho, acho que vai ser capaz de substituir os programas sociais que serão descontinuados no primeiro trimestre”.

Mas ele acrescenta que, ainda assim, deve haver uma desaceleração da demanda, pois hoje ela está apoiada no aquecimento do mercado de trabalho e nos programas e, a partir do primeiro trimestre, contará apenas com o primeiro fator.

Em resumo, não haverá “abismo fiscal” – do inglês “fiscal cliff”, expressão usada para descrever uma queda abrupta e extrema na demanda, quando o governo retirar os estímulos –, mas sim uma modulação da velocidade da retomada.

Há dois fatores de risco, entretanto, que estão interligados, na avaliação do economista. Se a segunda onda da Covid-19 for muito severa e a vacinação em massa não chegar a tempo de debelá-la, o isolamento social – e possivelmente até quarentenas – vai recrudescer e abalar o ritmo da atividade, com repercussões negativas no mercado de trabalho.

Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, traça um trajetória do mercado de trabalho semelhante à de Camargo, mas tem uma leitura mais cautelosa.

Pelas suas projeções, o desemprego atinge um pico de 17% em março, o que seria recorde da série da PNAD.

Ottoni, porém, mesmo com as seguidas surpresas positivas do Caged, tem várias preocupações em relação ao mercado de trabalho. Ele nota que os números do Caged se referem apenas ao emprego formal, que, ainda assim, não voltou ao nível pré-crise. O ano deve terminar com um saldo negativo no Caged, já que sazonalmente dezembro é um mês de forte demissão líquida.

A projeção de Ottoni é que, no primeiro trimestre, o Caged apresente saldo negativo de empregos formais.

A virada do ano, para o analista, pode levar empresas que entraram no BEm a iniciar demissões de trabalhadores que já não tem garantia de emprego pelo programa.

Há muitas incertezas e riscos rondando a economia, para ele, como a intensidade da segunda onda, questões fiscais, rolagem da dívida pública concentrada no primeiro trimestre e até a tentativa do governo de reverter no Supremo a prorrogação da desoneração da folha de diversos setores – caso isso ocorresse, afetaria o mercado de trabalho.

“São muitos fatores, e, se qualquer coisa der errado nessa equação, pode haver uma deterioração rápida da economia, num ambiente em que já haverá a pressão na busca por emprego dos que está voltando à força de trabalho”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/12/2020, quarta-feira.

O colunista entra em folga de fim de ano e volta a escrever esta coluna em 4/1/2021, segunda-feira.