Empregos desabam, mas programa ajuda

O resultado do Caged de março e abril, com perda líquida de 1,1 milhão de empregos formais, foi arrasador. Mas há sinais de que, ainda assim, o programa de suspensão ou redução de folha de pagamento pode estar ajudando a manter pessoas empregadas.

Fernando Dantas

28 de maio de 2020 | 16h10

Especialistas em mercado de trabalho não se surpreenderam com a perda líquida de 1,1 milhão de empregos formais em março e abril, segundo os dados do Caged divulgados hoje. Em comparação, houve ganho líquido de 87,4 mil em março e abril do ano passado. A explicação, obviamente, são os efeitos econômicos da pandemia.

Hoje foram divulgados de uma vez só os resultados do Caged, cujos dados a partir de janeiro foram integrados com o eSocial, o Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas. A razão do atraso foi justamente essa integração.

O economista Daniel Duque, especialista em mercado de trabalho do Ibre/FGV, nota que os 784 mil pedidos de seguro-desemprego em abril já apontavam para uma perda de postos formais na magnitude da ocorrida.

Levando em conta os meses de janeiro e março, antes da eclosão da pandemia, e que tiveram saldo líquido positivo de criação de empregos formais, houve no primeiro quadrimestre do ano uma destruição de postos formais de 763,2 mil, comparada a um ganho de 313,8 mil no mesmo período de 2019.

Duque observa que a perda de empregos formais com a pandemia abrangeu todos os setores, inclusive a agropecuária, mas foi puxada, como se esperava pelos serviços e comércio.

José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos (grupo Plural) no Rio, também já esperava perda de empregos formais da ordem das divulgadas pelo Caged. Mas ele nota que “houve até menos demissões que o esperado, e muito menos contratações do que o previsto”.

De acordo com os dados do Caged para 2020, foram 1,63 milhão de demissões em março e 1,46 milhões em abril. Isso se compara com, respectivamente, 1,33 milhão e 1,25 milhão nos mesmos meses de 2019.

Já nas admissões, o impacto da Covid-19 em 2020 deu-se inteiramente, até agora (no âmbito dos dados já divulgados) em maio. Em março deste ano, as contratações formais, de 1,39 milhão, superaram as do mesmo mês de 2019, de 1,29 milhão. Em abril, porém, a queda foi abissal: apenas 598,6 mil contratações este ano, ante 1,37 milhão em 2019.

Esse padrão de abril de redução de vagas de trabalho, puxado mais pela queda das contratações do que pelas demissões, pode ser um sinal de que o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda – de suspensão e redução de jornada de trabalho, com reposição parcial pelo seguro-desemprego – está funcionando.

Segundo o governo, 8,2 milhões de empregos já foram assegurados pelo programa.

Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, observa que os Estados Unidos já tiveram 38 milhões de pedidos de seguro-desemprego do início da crise, em meados de março, até a semana passada. No mercado de trabalho americano, altamente formal, os pedidos de seguro-desemprego são uma boa aproximação para a perda de empregos.

No Brasil os desligamentos no Caged em março e abril foram de 3,1 milhões. Não dá para comparar com o número americano citado anteriormente por várias razões, como população e mercado de trabalho formal bem maiores lá do que aqui e períodos diferentes – nove semanas até 21 de maio nos Estados Unidos, março e abril no Brasil.

Mas Ottoni nota que, ainda assim, há um feeling, que teria de ser comprovado de forma mais concreta, de que os 8,1 milhões de empregos preservados pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda pode ter feito alguma diferença positiva no Brasil, pelo menos até abril.

Adicionalmente, o especialista aponta que a perda de emprego de 3 milhões foi menos de da metade da adesão ao programa de manutenção de emprego, de 8 milhões – de novo, os períodos não são os mesmos, mas ainda assim a diferença muito grande é um possível sinal de efetividade do programa. Ottoni lembra, inclusive, que os altos custos de demissão no Brasil podem tornar a opção de suspender ou reduzir temporariamente a folha mais atraente que a dispensa.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada em 27/5/2020, terça-feira.