Entendendo o BNDES

Estudo de três economistas do BNDES esclarece pontos sobre os quais muitos falam com pouco conhecimento de causa.

Fernando Dantas

21 Abril 2018 | 15h13

Nos últimos anos, o BNDES esteve no olho do furacão do debate econômico nacional. Os aportes de mais de R$ 400 bilhões do Tesouro e o PSI, com suas taxas reais até negativas em alguns casos, fizeram com que o banco de fomento passasse a ser visto como um dos alicerces da tão criticada “nova matriz econômica”.

Em recente trabalho, os economistas Ricardo de Menezes Barbosa, Mauricio Furtado e Humberto Gabrielli buscam investigar algumas características do banco que são mencionadas nas discussões sobre o seu papel na economia brasileira, mas que nem sempre são devidamente dimensionadas.

As três perguntas que os autores tentam responder são até que ponto o BNDES é “o banco da infraestrutura nacional”; se o banco de fato se agigantou no período recente em relação ao seu tamanho médio histórico, tomando-se o tamanho do financiamento total como proporção da formação bruta de capital fixo (FBCF) e do PIB; e se o BNDES aumentou seu apoio relativo às grandes empresas brasileiras no passado recente, comparado com o seu histórico.

Em relação à primeira questão, os autores encontram que, da sua fundação em 1952 até 1960, o BNDES de fato foi o banco da infraestrutura, que teve 69,4% das aprovações de financiamento. No mesmo período, a participação da indústria foi de 28,4%, a do comércio e serviços de 2,2% e a agropecuária foi irrisória.  Dentro da infraestrutura, a principal parcela foi a do setor ferroviário, com 41,4%, e a de energia elétrica, com 26,8%.

Entre 1961 e 1970, no entanto, o BNDES se transformou no banco da indústria, que respondeu por 70,6% dos financiamentos neste período, comparado a apenas 25,2% da infraestrutura. Dentro da indústria, o setor “campeão” foi a siderurgia, com 41,8% das aprovações.

A partir daí, ao longo das décadas, o que se vê é, em linhas gerais, uma gradativa redução da diferença entre os financiamentos à indústria e a infraestrutura, até que este último setor ultrapassasse o primeiro no último período analisado – de 2011 a 2017, a indústria ficou com 28,8% dos financiamentos, e a infraestrutura com 35,9%.

Outra tendência ao longo das décadas foi o crescimento da participação dos demais setores. Assim, entre 2011 e 2017, a agropecuária teve 11,3% dos financiamentos, e comércio e serviços, 23,9%.

Em relação ao tamanho do BNDES, medido pela comparação entre seus financiamentos e a FBCF e o PIB, o banco saiu de números bastante baixos no seu início para um pico na época entre 1974 e 1978, a época do II PND com sua estratégia intervencionista – os financiamentos chegaram a 8,7% da FBCF, equivalentes a 1,9% do PIB. Esses números voltaram a crescer a partir de 1995, e atingiram um pico entre 2010 e 2014 – 17,1% da FBCF e 3,5% do PIB.

Os autores notam que “os dados mostram que o BNDES aumentou bastante seu tamanho na década de 2000, especialmente entre 2009 e 2014, sob influência do BNDES PSI, quando chegou a superar – em muito – o tamanho prevalecente na década de 1970, período que engloba o II PND”.

No período de 2015 a 2017, entretanto, o tamanho do BNDES (9,5% da FBCF e 1,6% do PIB) recuou para a média de 1995 a 1999 (respectivamente, 9,6% e 1,6%). Segundo Barbosa, Furtado e Gabrielli, “a redução de tamanho do Banco já aconteceu e, atualmente, os desembolsos reais da instituição estão equivalentes ao observado no início de 1998”.

Finalmente, eles mostram que a participação das grandes empresas nos desembolsos do BNDES caiu de 83,7% entre 1990 e 1994 para 66,6% de 2015 a 2017. Já a parcela das médias, pequenas e microempresas subiu de 16,3% para 33,4% entre os dois períodos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast na sexta-feira, 20/4/18.