Esquerda longe dos pobres

Candidatura derrotada de Marcelo Freixo no Rio é um retrato da dificuldade da esquerda moderna de conquistar o eleitorado pobre com valores tradicionais.

Fernando Dantas

01 Novembro 2016 | 17h25

A eleição para prefeito do Rio foi emblemática por ter confrontado no segundo turno duas forças que podem ganhar relevância, em termos nacionais, no cenário que virá depois do terremoto que vem atingindo o sistema político brasileiro, abalado pela combinação da Lava-Jato com a contínua fragmentação partidária.

Uma dessas forças é o voto evangélico, de natureza popular e conservadora em costumes, e que caracteriza Marcelo Crivella, o prefeito eleito. A outra é a esquerda possível depois do desastre que se abateu sobre o PT. Marcelo Freixo, o candidato derrotado do PSOL, é jovem, carismático, nunca foi acusado de corrupção, tem um histórico de enfrentamento das milícias, já foi celebrizado em filme de grande sucesso e está sintonizado com a virada da esquerda moderna na direção das lutas na área de costumes e em prol dos direitos de minorias.

O confronto dessas duas forças no Rio de Janeiro revelou facetas interessantes e até aparentemente contraditórias. Uma delas é que Freixo, o candidato da esquerda, foi também o candidato dos mais ricos. E Crivella, à direita do psolista, foi o candidato dos pobres.

Dessa forma, o mapa eleitoral do Rio revela que, de maneira geral, quanto mais pobre a região do Rio, mais votos foram canalizados para Crivella. E, inversamente, Freixo foi vitorioso nas partes mais ricas, basicamente na Zona Sul e em parcela da zona Norte.

Em Santa Cruz, o bairro mais a oeste da carente Zona Oeste, Crivella colheu impressionantes 75,89% dos votos no segundo turno, contra somente 24,11% para Freixo. Já em Cosme Velho e Laranjeiras na zona Sul, bairros de classe média, Freixo teve o seu melhor resultado, com 67,09% dos votos, contra 32,91% de Crivella. Houve a exceção de Ipanema, um dos bairros mais afluentes do Rio, onde Crivella ganhou por 52,19% a 47,81% de Freixo. Mas o padrão geral indica claramente que Freixo foi melhor nos bairros mais ricos.

Esse resultado aponta um fenômeno mais amplo, que dificulta a vida da esquerda não só no Brasil, mas também em muitas outras partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos. Os órfãos da globalização – e, no Brasil, as vítimas principais do subdesenvolvimento e da instabilidade econômica – são muitas vezes grupos sociais com valores mais conservadores do que a elite educada e mais cosmopolita que sabe se beneficiar melhor das oportunidades econômicas.

Pode-se pensar, nos Estados Unidos, na classe operária do interior do país, que sofre na pele as consequências de desindustrialização. No Brasil – e, no caso em análise, no Rio de Janeiro – o exemplo é a população de regiões como a Zona Oeste carioca, com seu coquetel de baixa educação, pobreza, favelização, informalidade, violência, milícias, cultos evangélicos e carência de bons serviços públicos.

Tanto num caso como no outro, são populações com grandes frustrações econômicas e valores tradicionais e, portanto, vulneráveis ao populismo. Crivella, com a experiência da Igreja Universal em se comunicar com os mais pobres, mostrou nesta eleição que sabe como ninguém conquistar este tipo de eleitor. Nos Estados Unidos, Trump, mesmo com sua biografia de playboy, explora ressentimentos até raciais (é grande a população branca americana de origem operária) para se sintonizar com essa parte mais simples e conservadora do eleitorado.

A esquerda moderna, por sua vez, tem dificuldade de se aproximar desse tipo de eleitor que se sente marginalizado. Uma das possíveis formas é falar ao seu bolso. Nesta seara econômica, porém, ou houve uma modernização do pensamento que o aproxima muito do centro (caso de Obama e Hillary, nos Estados Unidos), ou se mantêm velhas ideias equivocadas que podem render frutos de curto prazo num ciclo populista (na esteira de um boom de commodities, por exemplo, como no caso do Brasil e de outros países latino-americanos), mas que invariavelmente acabam levando ao desastre.

Este é precisamente o ponto em que se encontra hoje a esquerda brasileira. O ciclo populista se extinguiu – desastrosamente, como de costume – e o discurso econômico que o sustentou está desmoralizado. É natural nessa situação que a energia da esquerda conflua para figuras como Freixo, que representam muito mais políticas avançadas no campo do comportamento, dos direitos humanos e do enfrentamento da brutalidade do que uma plataforma econômica consistente, com capacidade de ressoar entre os mais pobres.

O problema, porém, é que é exatamente esse programa não-econômico de Freixo, com toda a sua carga de valores, que repele muitos eleitores pobres, que se sentem mais identificados com as ideias simples, moralistas e conservadoras de Crivella. A batalha do segundo turno no Rio, em que Freixo foi cabalmente derrotado por 40% a 60% por Crivella, indica que pode não ser fácil a reconstrução da esquerda no Brasil. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1º/11/16, terça-feira.