Esquerda retoma as ruas

A esquerda contrária ao impeachment de Dilma e adepta do fora Temer deu uma expressiva demonstração de força na manifestação de domingo, 4/9, em São Paulo. Desta vez, não houve manifestações do eleitorado antipetista para contrabalançar, e o governo tem que se acostumar com esta nova realidade. A solução não é nem menosprezar a oposição, classificando-a de "quarenta pessoas que quebram carro", nem superestimar a sua força, já que os adversários do impeachment de Dilma, que no momento são a maior parte dos que pedem a saída de Temer nas ruas, ainda são uma minoria, mesmo que uma grande minoria. O erro fatal seria recuar na reforma fiscal para tentar apaziguar os opositores. Na verdade, quanto mais rápidas e profundas forem as medidas para debelar a crise das contas públicas, mais chances têm Temer de ser tolerado e aceito pela maioria dos brasileiros como alguém que reergueu a economia depois do grande desastre da experiência populista.

Fernando Dantas

05 Setembro 2016 | 19h21

Uma das preocupações da esquerda após as grandes manifestações populares de 2013 é de que havia “perdido as ruas”. Naquele ano, depois da fagulha inicial provocada pelo movimento pela gratuidade dos ônibus em São Paulo e pela reação violenta da polícia, a chama espalhou-se por todo o País e muitos milhões foram às ruas em diversas cidades e capitais, com uma pauta de reivindicações enorme e contraditória, que até hoje vem sendo digerida pelos cientistas políticos.

Foi também o momento em que se instalou na sociedade um nível inédito de desconfiança e hostilidade em relação ao sistema político, que fez despencar a popularidade não só da então presidente Dilma Rousseff, mas também da maioria dos governadores e de muitos prefeitos.

A partir da ruptura de 2013, o perfil da população que viria a frequentar as muitas manifestações que se seguiram mudou muito em relação ao que se registrava desde o início do período da redemocratização.

No movimento das Diretas Já, as ruas agregavam todo o arco político do centro à esquerda (incluindo até parcelas da centro-direita) que ficara contra o regime militar, a maioria esmagadora da sociedade. Diferentemente de 2013, porém, havia claras lideranças políticas com enorme prestígio, como Ulysses, Tancredo, Covas, Brizola e Lula e que, de maneira geral, se situavam do centro para a esquerda.

Durante os governos do período democrático, cresceram os chamados movimentos populares, junto com o seu maior patrocinador político, o PT. Foram comuns as manifestações de caráter sindical, ou em protesto contra medidas de controle de gastos públicos que afetassem grandes grupos beneficiários, como funcionários públicos. MST e diversas minorias também viram aumentar seu cacife político. As ruas ficaram com uma cara mais de esquerda.

A partir de 2013, porém, as manifestações se dividiram. Começou a fase dos protestos contra a corrupção e com caráter antipetista, que se tornaram a grande força por detrás de algumas das maiores manifestações de massa da história brasileira, culminando nas enormes multidões que foram às ruas recentemente para pedir o impeachment de Dilma. Os defensores de Dilma e outras forças de esquerda organizaram também suas próprias manifestações, mas que eram nitidamente menores e politicamente menos potentes do que o movimento pelo impeachment.

Neste último domingo, porém, com a manifestação pela saída de Temer em São Paulo – que surpreendeu pelo tamanho – e em outras partes do País, o quadro pode ter começado a mudar. E não terá sido porque, subitamente, a esquerda anti-impeachment e adepta do “fora Temer” tenha crescido. Não, ela continua sendo uma minoria, ainda que expressiva, do eleitorado. O que mudou é que, desta vez, o antipetismo não compareceu às ruas quase simultaneamente para medir multidões e força política com a esquerda.

E é natural que assim seja. O petismo e outras forças da esquerda e dos movimentos sindicais e sociais têm partidos e reconhecem lideranças políticas. O desastre final do PT na presidência pode ter transferido muitos votos deste partido para o PSol, por exemplo, mas as manifestações contra o impeachment, incluindo a deste domingo, deixam claro que esta parcela do eleitorado não abandona os seus veículos de luta política, sejam partidos, sindicatos e outras organizações.

Já as enormes multidões pró-impeachment e antipetistas não têm, em princípio, nenhuma razão para sair às ruas para defender o governo Temer e o PMDB. Muito pelo contrário, tanto o PMDB como o atual presidente estão chamuscados pela operação Lava-Jato, e o combate à corrupção foi um combustível central nas grandes manifestações para destituir a Dilma. As multidões contra a corrupção e o PT já se mostraram em diversas ocasiões pouco afeitas aos políticos que pretensamente poderiam liderá-las, como as lideranças tucanas que foram hostilizadas em uma das grandes manifestações na Paulista.

Assim, até que alguém invente alguma razão para que a turma do “fora Dilma” volte a se manifestar, a esquerda retoma a condição de principal dona das ruas – e vai tirar tudo o que puder deste trunfo na luta para tentar barrar as reformas fiscais e, consequentemente, levar o governo Temer a um retumbante fracasso.

Esse era um fato bastante fácil de prever, e espera-se que Temer não tenha alimentado a veleidade de que em pouco tempo poderia ouvir seu nome sendo aclamado por multidões eufóricas em todo o País.

Risco de “sarneyzação”

Na verdade, ele e seus principais operadores políticos devem ter consciência de que o barulho da esquerda é inevitável e não deve em hipótese nenhuma ser tratado de forma arrogante como “quarenta pessoas que quebram carros”, como ironizou Temer em momento de especial infelicidade. Por outro lado, o presidente deve ter em mente que os manifestantes de domingo de fato ainda representam uma minoria do eleitorado, embora uma grande minoria e com forte capacidade de luta política e de convencimento.

A melhor estratégia para se contrapor ao “fora Temer” é agir para que este grupo não consiga a adesão de grandes parcelas da maioria menos politizada e normalmente mais silenciosa da sociedade. Se isto acontecer, pode ficar ainda mais difícil ou até mesmo impossível governar.

A grande e tentadora miragem que ameaça o presidente – especialmente por sua personalidade afeita à conciliação – é achar que amenizar as reformas fiscais e atender a grupos de interesse é a forma de isolar o PT e outros adversários à esquerda. Se fizer isto, Temer comprará pouquíssimo tempo e o preço pago terá sido o de jogar fora de forma definitiva qualquer chance de sucesso no dificílimo desafio que tem na presidência do Brasil até 2018. Seria a opção pela “sarneyzação”.

O único curso de ação sensato para o presidente é aproveitar a força e a capacidade de articulação do seu grupo político no Congresso para apressar e aprofundar ao máximo a reforma fiscal, o único caminho para superar a crise econômica. É muito difícil que Temer ganhe o coração dos brasileiros, mas pode ser tolerado e apoiado se demonstrar que, no momento, é a melhor opção para proteger de forma consistente e duradoura os bolsos da população, depois da tragédia econômica provocada pela aventura populista dos últimos anos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/9/16, segunda-feira.