Estabilização de Marina ou avanço de Dilma?

A grande dúvida agora é se chegamos ao fim da onda Marina ou se, na verdade, Dilma se recupera por méritos da sua própria campanha.

Fernando Dantas

09 de setembro de 2014 | 19h15

Os resultados das últimas pesquisas significam apenas o fim da onda Marina ou uma reação mais consistente de Dilma? Em outras palavras, é somente a candidata socialista que parou de crescer, ou é também o início de um processo significativo de recuperação de intenção de votos pela atual presidente? Muitos no mercado, que gostariam de ver uma mudança para uma política econômica mais ortodoxa no próximo mandato, torcem para que se trate apenas do fim da onda Marina, com a candidata socialista cristalizando o atual nível de intenção de votos e mantendo-se como favorita da eleição.

Um fator adicional na complexa equação eleitoral no momento é o efeito da nova etapa do escândalo da Petrobrás. É possível que as pesquisas que estão sendo divulgadas hoje ainda não reflitam todo o impacto de notícias tão recentes. De qualquer maneira, abstraindo-se desse fator e de suas possíveis consequências nas próximas semanas, há sinais de que, em termos relativos, a situação de Dilma melhorou, e a de Marina piorou.

Hoje, os dados da pesquisa CNT/MDA mostraram melhora da presidente na simulação do segundo turno em relação à sua principal desafiante no momento. Marina tem 45,5% das intenções de voto, enquanto Dilma fica com 42,7%, o que indica empate técnico. No levantamento anterior, divulgado em 27 de agosto, Marina tinha 43,7%, e Dilma, 37,8%. Houve, portanto, um estreitamento de 5,9 para 2,8 pontos porcentuais na diferença entre as duas rivais no segundo turno

No primeiro turno, a pesquisa da CNT/MDA dá 38,1% de votos para Dilma e 33,5% para Marina, ante respectivamente 34,2% e 28,2% no último levantamento. Neste caso, Marina chegou mais perto, saindo de uma diferença de seis pontos porcentuais para 4,6.

A simulação do segundo turno, porém, parece mais importante. Primeiro porque a variação dos números, a favor de Dilma, foi maior. E, em segundo lugar, porque há uma dinâmica complexa de intenções de votos que circulam entre os três candidatos no primeiro turno, enquanto que, na pesquisa sobre o segundo, é possível observar de forma depurada a corrida entre as duas candidatas que provavelmente chegarão lá.

De qualquer forma, há grande ansiedade em relação à nova pesquisa da Datafolha, prevista para ser divulgada esta noite.

Segundo um especialista em temas eleitorais, que preferiu não se identificar, as eleições presidenciais deste ano estão entre as de maior incerteza dos últimos tempos. Ele lista uma sequência de fatos, iniciados no ano passado, que contribuem para nublar o panorama eleitoral de hoje.

O primeiro foram as manifestações de junho de 2013, que revelaram ao País um disseminado e intenso sentimento de insatisfação com as forças políticas tradicionais. A dúvida, no caso, era sobre quem poderia capitalizar essa frustração, e como. A segunda sacudida do tabuleiro eleitoral veio com dois eventos conectados em rápida sucessão: o fracasso de Marina em criar a Rede Sustentabilidade para se lançar como candidata, seguido do seu acordo para apoiar Eduardo Campos, de cuja chapa se tornou a candidata a vice-presidente.

A terceira grande reviravolta foi a morte de Campos no acidente aéreo de 13 de agosto, seguida da fulminante “onda Marina”, que de forma velocíssima alçou-se à favorita (pelas simulações de segundo turno), com efeitos arrasadores sobre a candidatura do tucano Aécio Neves, que até então avançava aceitavelmente bem. O quarto evento inesperado é o grande escândalo da Petrobrás.

Para o analista, “o problema de Marina é que sua onda foi tão espetacular que ela rapidamente atingiu seu teto, e colocou as intenções de voto dos seus adversários no piso, faltando ainda mais de dois meses para o voto no segundo turno”.

Como as intenções de voto em Marina cresceram muito na esteira do abalo emocional da morte de Campos e do sentimento de rejeição à política tradicional, sua posição nas eleições ficou vulnerável a uma abordagem mais racional e detalhada sobre os planos de cada candidato. Caso a onda fosse próxima ao momento do voto decisivo no segundo turno, provavelmente não haveria tempo para um questionamento mais intenso da candidata do PSB. O fato de que a onda atingiu sua altura máxima (pelo menos nesta primeira subida) numa fase tão prematura da campanha, criou o tempo necessário para que os ânimos e o entusiasmo esfriassem e que seus adversários explorassem sistematicamente as suas fraquezas.

O que se viu, em seguida, foram uma série de contratempos que criaram problemas para a campanha de Marina e revelaram inconsistências, como nas idas e vindas nas questões do casamento gay e da lei anti-homofobia e na abordagem do pré-sal. Para o analista, Marina também corre o risco de soar inautêntica na pressa em suavizar sua imagem de radicalidade em alguns temas, como na declaração de que não tem nada contra os transgênicos, que se choca com a sua história política. E há, finalmente, fatos como as irregularidades do avião em que Campos faleceu e o próprio envolvimento do ex-governador e Pernambuco nas acusações do escândalo da Petrobrás.

Mas seria um erro analisar a competição entre Dilma e Marina apenas sob a ótica dos erros e acertos da candidata socialista. Na verdade, o pico de impopularidade da atual presidente já ficou para trás, e é possível que a sua melhora recente deva-se tanto ou mais à dinâmica da sua própria candidatura do que à da sua oponente.

Em trabalho divulgado em julho deste ano, o cientista político Cesar Zucco Jr, da Escola de Administração Pública e de Empresas (Ebape), da FGV-Rio, notou que havia descompassos entre a popularidade da presidente Dilma e avaliações de qualidade pessoais da presidente e de programas específicos do seu governo (ou iniciados por Lula), como Tarifa Social, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos e Bolsa Família. No caso das qualidades pessoais, como honestidade e competência, ela pontuava acima de Aécio Neves e Eduardo Campos. Marina não entrou na avaliação porque, naquele momento, o candidato ainda era Campos.

Zucco Jr apontou para a possibilidade de que o descompasso diminuísse e que a avaliação de Dilma e de seu governo ficasse mais próxima do julgamento sobre suas qualidades pessoais e programas. Ele não afirmou que isto ocorreria, mas indicou que seria uma possibilidade. Certamente, o longo tempo de propaganda eleitoral de Dilma no primeiro turno também facilita vender melhor as realizações do seu governo, o que pode estar influenciando positivamente a sua popularidade.

Fernando Dantas é jornalista de Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/9/2014

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