Estádios caros, mas menos do que se pensa

Fernando Dantas

28 de junho de 2013 | 16h41

Você sabia que o custo dos estádios brasileiros construídos ou reformados para 2014, apesar de ser o mais caro entre aqueles erigidos para as últimas Copas, não é muito maior do que os do Japão e da Coreia do Sul, países muito mais produtivos e com engenharia muito mais avançada do que o Brasil? Esta é apenas uma das informações interessantes e surpreendentes que consta do trabalho “Quanto custa um estádio de futebol? Ou: ainda temos tempo de economizar 42 Maracanãs”, dos consultores legislativos do Senado Marcos Mendes e Alexandre Guimarães (o texto completo está aqui).

Segundo a ONG dinamarquesa Play the Game, voltada a fortalecer a ética no esporte, o custo médio do assento de uma pessoa nos seis estádios brasileiros já concluídos em junho de 2013, e que estão sendo utilizados na Copa das Confederações, é de US$ 5.886. Em comparação, o custo médio dos estádios da África do Sul foi de US$ 5.299 por assento (10% a menos que o Brasil), e os da Coreia do Sul e Japão foram 16% mais baratos, em US$ 5.070.

Os autores notam que o câmbio afeta esta comparação, e acrescentam que “todos aqueles que conhecem o Brasil esperariam preços muito acima da média internacional, não só devido a uma percepção de alta corrupção e ineficiência, como também pelo fato de que o custo de investir no Brasil é elevado”.

O custo dos estádios alemães foi muito mais barato, em US$ 3.442 por assento, ou 42% abaixo do custo brasileiro. Neste caso, porém, escrevem Mendes e Guimarães, a explicação está em que a Alemanha já possuía antes da Copa vários estádios que atendiam ao padrão Fifa, e que necessitavam apenas de ajustes.

Quando se tomam apenas estádios brasileiros e de outros países que foram inteiramente construídos ou que sofreram grandes reformas, o Brasil também não aparece mal na comparação. Quatro estádios brasileiros –Fonte Nova (Bahia), Arena Pernambuco, Mineirão e Castelão (Fortaleza) – estão abaixo da média de US$ 6.429 por assento de uma lista de 19 arenas nacionais e internacionais. Já o Maracanã (US$ 7.730) e o Mané Garrincha, em Brasília (US$ 8.830) estão acima na média, respectivamente como o quinto e o quarto mais caros da lista.

Engana-se, porém, quem achar que o texto dos dois pesquisadores é uma defesa das iniciativas do governo brasileiro em relação à Copa do Mundo. Como resume Mendes, “esses dados mostram que os estádios brasileiros não foram tão caros em termos relativos, mas eles são muito caros comparados com outros projetos prioritários”.

Alguns dos estádios brasileiros tiveram fortes estouros de custos em relação à projeção inicial – de 100%, no caso do Maracanã; 66%, no Mineirão, e 63%, no Mané Garrincha. Em contrapartida, o Fonte Nova teve estouro de apenas 3%, a Arena Pernambuco saiu 6% abaixo do projetado, e o Castelão ficou 28% mais barato do que o previsto.

Os autores observam que a experiência brasileira indica que as Parcerias Público-Privadas (PPPs), em que empresas construíram os estádios e vão geri-los, com subvenção estatal, barateiam os custos. Assim, o Maracanã e o Mané Garrincha, que além de estarem entre os mais caros tiveram forte estouro em relação à previsão inicial de custo, foram reformados pelos governos estaduais, com contratação de empreiteiras. Nos outros estádios, foram usadas as PPPs. Para Mendes e Guimarães, o fato de que, na PPP, a empresa ou consórcio que constrói irá explorar o estádio é um incentivo à economia na construção, já que, quanto maiores forem os gastos nesta fase, menor o retorno total do empreendimento.

O caso do Mineirão é mais complexo, porque a própria opção pela PPP foi feita no meio do caminho e houve mudanças no projeto.

Os autores notam também que é não é correta a visão de que os estádios foram construídos sem dinheiro público, já que este entrou indiretamente no financiamento, como subsídio implícito nos financiamentos do BNDES, na participação direta dos governos estaduais no financiamento e em concessões de terrenos em alguns casos.

Além disso, em relação à Copa como um todo, superestimaram-se os benefícios em termos de investimentos em infraestrutura urbana, estímulo ao turismo e melhora da imagem do País.

A própria utilização (e lucratividade) posterior das arenas foi mal pensada no Brasil. O Saporo Dome japonês, o estádio mais caro de toda a lista da Play the Game (US$ 10.373), é muito usado e tem lucro, com competições de outros esportes, como baseball e até esqui. Já as perspectivas do Mané Garrincha, dada a fraqueza do futebol brasiliense e a falta de flexibilidade do estádio para outros eventos, não são boas.

Mas talvez o principal ponto de Mendes e Guimarães é o de que o Estado brasileiro tem capacidade limitada para planejar e executar obras, e que estes recursos escassos têm de ser geridos com senso de prioridade.

“Faltam engenheiros, planejadores, há uma legislação de licitação ainda complicada e lenta, entraves ambientais, etc, e o governo tem de ter consciência que sua capacidade de tocar projetos simultaneamente é limitada”, diz Mendes.

Desta forma, a agenda de construção de estádios para a Copa “congestionou”a utilização dos recursos gerenciais do governo, num País que precisa agudamente de mais estradas, portos, saneamento, transporte urbano, etc.

Neste sentido, alertam os autores no final do trabalho, um grande erro que vem sendo gestado no governo é o projeto do trem-bala, cuja estimativa de custo já saltou de R$ 18 bilhões para R$ 35,6 bilhões mesmo antes do início das obras, ou R$ 50 bilhões se os preços de 2008 forem corrigidos. É aí que Mendes e Guimarães veem a oportunidade de “economizar 42 Maracanãs”, à qual aludiram no título do trabalho.

Para eles, “o projeto (do trem-bala) não é prioritário, porque será um meio de transporte de luxo, com passagens caras, destinado a transportar pessoas de alta renda entre Rio e São Paulo”. Para eles, justificar o trem-bala envolve “o mesmo raciocínio que coloca estádios de futebol à frente de saneamento básico, transporte urbano e outras prioridades gritantes da realidade urbana brasileira”.

Num momento em que a sociedade vai às ruas para exigir a melhora dos serviços públicos, o alerta de Mendes e Guimarães deveria ser considerado pelo governo. Para eles, arquivar o projeto do trem-bala “valerá mais do que um hexacampeonato”.

fernando.dantas@estadao.com

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

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