Esticando a corda

Acuado pela perda do favoritismo em 2022 para Lula, Bolsonaro radicaliza ações antidemocráticas, o que pode deixar cicatrizes profundas nas instituições, na política e na economia.

Fernando Dantas

06 de agosto de 2021 | 22h34

O presidente Jair Bolsonaro, que perdeu o favoritismo nas eleições presidenciais de 2022 para Lula, dá todos os sinais de que está trabalhando para melar o jogo.

A ridícula campanha pelo voto impresso – a lisura eleitoral é um ponto alto da democracia brasileira, que tem tantos outros problemas – nada mais é do que uma preparação para o questionamento do resultado eleitoral do próximo ano em caso de derrota.

Como se verificou nos Estados Unidos em 6 de janeiro na invasão do Capitólio, esse é um jogo perigosíssimo quando inclui insuflar fanáticos contra as instituições democráticas. E essas instituições são sem dúvida mais fortes na democracia americana que na brasileira.

Por outro lado, a democracia brasileira é mais resistente do que a de outros países em que autocratas, no estilo contemporâneo de golpe gradativo e sub-reptício, se consolidaram no poder, como Venezuela, Turquia e Rússia.

As instituições estão reagindo, como fica claro no cancelamento da reunião dos chefes dos Poderes por Luiz Fux, presidente do Supremo, depois dos últimos ataques de Bolsonaro à democracia.

O problema é que o custo institucional, político e econômico desse enfretamento pode ser extremamente alto e deixar cicatrizes duradouras na sociedade brasileira.

Para Octavio Amorim Neto, cientista político da Ebape-FGV, Bolsonaro está estruturalmente derrotado, tendo perdido apoio em amplos segmentos do empresariado, do mercado financeiro e das elites em geral, e sem nunca ter conseguido obter popularidade majoritária junto ao eleitorado.

Desde o início do seu governo, na visão do analista, o presidente só perdeu apoio e “não agregou nada”.

Bandeiras de campanha, como nova política, combate à corrupção e liberalismo ortodoxo na economia foram abandonadas. Quanto ao último ponto, o pesquisador lembra a proposta de “calote nos precatórios”.

Porém, apesar de enfraquecido, o presidente continua politicamente vivo, para Amorim. Ainda tem o apoio de alguns setores do empresariado e do agronegócio e de algo como um quarto da população. O Bolsa-Família turbinado e alguma recuperação da economia podem reforçar um pouco esse cacife.

O presidente, portanto, deve permanecer sem favoritismo para 2022, mas tem fichas suficientes para tumultuar o processo. Amorim considera evidente que Bolsonaro se prepara para não aceitar uma eventual derrota no próximo ano.

O que cria uma saia justa para seus apoiadores, como os militares e lideranças do Centrão. Na visão de Amorim Neto, esses atores estão tentando se equilibrar entre rejeição ao golpe e lealdade a Bolsonaro, mas essa combinação se tornou um corda bamba cada vez mais difícil de atravessar.

À medida que o presidente for radicalizando suas ações e declarações antidemocráticas, a travessia pode se tornar impossível, exigindo uma definição daqueles atores. Será catastrófico institucionalmente se os militares nessa hora não se posicionarem firmemente contra os planos antidemocráticos de Bolsonaro.

Aliás, Amorim Neto acha paradoxal que os comandantes militares venham, bem ou mal, comentando publicamente a crise política, enquanto atores políticos como Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), presidente do Senado, e Augusto Aras, procurador-geral da República, mantêm “um silêncio que berra”.

Já Fernando Abrucio, cientista político da EAESP/FGV, chama a atenção para as consequências econômicas da crise política.

“Bolsonaro está colocando a economia em risco, tanto porque os investidores internacionais estão preocupados com a instabilidade, como porque o empresariado nacional está temendo os reflexos da tensão política”.

Abrucio considera que a alta forte (e acima das expectativas) da inflação fará a economia iniciar 2022, ano eleitoral, em condições mais frágeis.

“É o custo de se ter um presidente populista autoritário, o lado econômico começa a ser afetado pela política”, analisa.

Ele lembra que, em recente artigo no Estadão, cunhou a expressão “custo Bolsonaro”, que já começa a ser usada no mercado.

Segundo Abrucio, o populismo do presidente tem duas faces que aumentam a tensão e as incertezas. A primeira é a autoritária, que coloca as eleições em risco, o que por si só já tem um impacto econômico negativo.

A segunda ocorre diretamente na política econômica.

“Essa faceta aparece nesse projeto tresloucado de reforma tributária, no calote dos precatórios, no Refis e em tentar viabilizar gastos sem fim, o que vai gerar ainda mais inflação”, prevê o cientista político.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/8/2021, sexta-feira.