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Estímulo keynesiano

Com a economia em marcha lenta, governo parte para tentar estímulos diretos à demanda... de novo.

Fernando Dantas

21 Abril 2018 | 14h56

Apesar de todo o grande ciclo de cortes da Selic desde outubro de 2016, que trouxe a taxa básica para seu recorde histórico de 6,5% (com perspectiva de ir para 6,25% em maio), há análises que apontam como fator decisivo para o desempenho econômico de 2017 (1% de crescimento) a liberação de R$ 40 bilhões do FGTS.

A injeção de recursos do FGTS tem um gosto “keynesiano” de estimular a demanda simplesmente colocando dinheiro nas mãos do distinto público para gastar. A vantagem é que não há custo fiscal, pois esse dinheiro já pertence ao público, que tem restrições para usar o que é seu, num mecanismo de poupança forçada.

A adoção dessa medida pela atual equipe econômica de perfil ortodoxo foi apoiada, não sem alguma dose de ironia, pelo ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que não perdeu chances de indicar que este tipo de estímulo direto à demanda é malvisto por certo tipo de abordagem liberal.

De qualquer forma, com a economia desapontando mesmo diante da continuidade do ciclo de cortes da Selic, e a inflação ainda causando surpresas para baixo, o governo parece querer repetir a dose “keynesiana” em 2018.

Assim, o governo pensa em criar uma janela para que qualquer pessoa possa sacar recursos do PIS/Pasep depositados até 1988, que foram liberados para quem tem mais de 60 anos. Há também medidas como a utilização de recursos do FGTS como garantia do crédito consignado, redução do compulsório bancário e barateamento e facilitação pela Caixa do crédito imobiliário e para Estados. Já os acordos de devolução pelos bancos de perdas de planos econômicos não são uma medida do Executivo, mas também ajudam.

Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda, quando Barbosa era o ministro, nota semelhanças entre o atual momento e o final de 2016. Lá, a angústia era a falta de retomada da economia, o que levou ao pacote que incluiu os saques do FGTS, um novo Refis e uma série de medidas ligadas a crédito, como a oferta de uma linha mais barata depois de um mês no rotativo do cartão de crédito, entre outras.

Agora, observa Pires, a economia está bem melhor, e não há dúvida de que há uma retomada. Mas há angústia também com o ritmo decepcionante, o que está por trás do lançamento de mais estímulos. Ele avalia que a munição agora é menor, principalmente porque o principal item, o PIS/PASEP, está estimado em R$ 15 bilhões, bem menos que a liberação do FGTS no ano passado.

A vantagem de mecanismos desse tipo, segundo Pires, é que eles acabam multiplicando os canais pelos quais os estímulos chegam a economia – e, assim, compensam eventuais entupimentos ou demoras em outras medidas de incentivo. Assim, a queda da Selic demora a afetar de forma mais significativa as taxas de mercado, especialmente por causa dos altos e resistentes spreads. Já recursos como o do FGTS tornam-se imediatamente mais poder de compra nas mãos da população.

O economista, que hoje é pesquisador associado do Ibre/FGV, diz que o ambiente político para passar reformas até o final do governo Temer piorou muito, o que faz com que a política econômica acabe se voltando mais para as questões de curto prazo, como a de tentar acelerar a retomada. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/4/18, quarta-feira.