Estrutural e conjuntural em colisão

Desemprego vem caindo, mas também a renda do trabalho, o que torna ainda pior a situação dos empregos de baixa qualidade que deram a tônica do crescimento das ocupações nos últimos anos.

Fernando Dantas

28 de janeiro de 2022 | 18h52

A PNADC de novembro, isto é, do trimestre setembro-novembro, veio no geral em linha com as expectativas, sem maiores surpresas. A taxa de desemprego caiu mais um pouco, para 11,6%, com recuo ante o trimestre anterior, junho-agosto (13,1%), e ante o trimestre setembro-novembro de 2020 (14,4%).

O mercado de trabalho prossegue em lenta recuperação após o terremoto provocado pela pandemia, mas o que chama atenção é a forte queda da renda média.

Na divulgação anterior, há um mês, do trimestre até outubro, a renda média habitual de todos os trabalhos de R$ 2.449 já era o nível mais baixo da série histórica iniciada em março de 2022. Agora, na PNADC de novembro, o mesmo indicador caiu para R$ 2.444, prosseguindo o mergulho em território histórico de baixa.

Há uma queda da renda real generalizada entre todas as categorias de ocupação, que vem desde 2020. Entre a PNAD de outubro e novembro do ano passado, o recuo prosseguiu em todos os tipos de trabalho – setor privado, setor público, doméstico, empregador e conta-própria – e em toda as subdivisões dessas categorias.

Segundo o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, especialista em mercado de trabalho do Ibre-FGV, o desemprego ainda elevado dá mais poder de barganha ao patrão, relativamente ao empregado, e contribui para a queda contínua da renda real (que ainda enfrenta as salgadas taxas de inflação).

O pesquisador considera provável que a renda real prossiga em queda e se estabilize em nível baixo, sem força para se recuperar de forma relevante.

Outra observação de Barbosa Filho é de que o aumento das ocupações formais na PNADC – que também vem de 2020 e ocorreu ao longo de todo o ano passado – não deve alimentar a ilusão de que o Brasil está passando por uma retomada forte e de qualidade do mercado de trabalho.

Na verdade, essa recuperação da ocupação também é quase generalizada entre as categorias. Dessa forma, foram criados, na comparação do trimestre até novembro com o trimestre até agosto, 1,3 milhão de empregos com carteira, 838 mil sem carteira e 588 mil ocupações por conta própria.

Na visão de Barbosa Filho, contudo, o processo de crescimento acentuado do emprego formal deve estancar – inclusive sem que se volte exatamente ao mesmo nível pré-pandemia, porque houve perda definitiva de postos no processo que ele chama de “hibridização” do emprego, a combinação entre trabalho remoto e presencial, parte da qual deve se tornar permanente.

O que há no momento, para o economista, é uma reposição dos empregos formais que foram perdidos na pandemia. Para que essa fatia mais nobre do mercado de trabalho ganhasse dinâmica sustentável de crescimento, seria preciso, a seu ver, um ritmo de crescimento da economia de 3% a 4%. Barbosa Filho considera muito difícil que isso ocorra com o desequilíbrio fiscal estrutural ainda presente.

Assim, o padrão de crescimento do mercado de trabalho brasileiro, na sua análise, deve se manter como o descrito na Carta do Ibre de dezembro de 2021, de Luiz Guilherme Schymura, diretor do think-tank, mas baseada em pesquisa de Barbosa Filho.

Esse padrão significa que ocupações vulneráveis, majoritariamente informais e de baixa qualificação e renda, deram o dinamismo de crescimento do mercado de trabalho brasileiro nos anos anteriores à pandemia, e devem voltar a dar, na visão do especialista.

Como mostra o artigo de Schymura, “entre o terceiro trimestre de 2012 e de 2019, um conjunto de apenas seis ocupações no setor de serviços, correspondentes hoje a 18,1% da população ocupada (PO) do Brasil, foi responsável pela criação de 5,25 milhões de postos de trabalho”.

Esses novos postos são mais do que 100% do aumento da população ocupada naquele período, já que o conjunto de todos os outros teve, na verdade, retração.

Aquelas atividades que criaram empregos são “comerciantes e vendedores de lojas”, “outros vendedores”, “condutores de automóveis, caminhonetes e motocicletas”, “cabelereiros, especialistas em tratamento de beleza e afins” e “vendedores de rua e postos de mercado”.

Na realidade do Brasil, correspondem na grande maioria dos casos à expansão do setor de serviços de baixa produtividade, típica de países atolados na armadilha de renda média.

O problema agora, conclui Barbosa Filho, é que os problemas estrutural e conjuntural estão colidindo: não só a dinâmica do mercado de trabalho brasileiros tende a continuar privilegiando esses postos de baixa qualidade, como a PNADC mostra que esses trabalhadores (não só eles, mas são os que mais sofrem) estão perdendo renda, já bem baixa, por causa do alto desemprego e a consequente falta de poder de barganha.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/1/2022, sexta-feira.