Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

EUA criticam China e Alemanha, os “superavitários”

Fernando Dantas

17 de abril de 2014 | 18h57

Com reservas de praticamente US$ 4 trilhões, e uma desvalorização do yuan de quase 3% nos últimos meses, a China está de novo no foco das críticas das autoridades econômicas norte-americanas. No recém-divulgado Relatório ao Congresso sobre a Economia Internacional e as Políticas de Câmbio, o governo dos Estados Unidos não chega a classificar a China como manipuladora cambial, mas tece várias críticas ao país asiático. De maneira mais ampla, porém, o relatório reflete a persistência, na visão americana, dos desequilíbrios globais entre os países superavitários e deficitários na conta corrente.

Para o Tesouro dos Estados Unidos, apesar da prevista recuperação em 2014, “a demanda global é inadequada”. Para resolver este problema, a demanda doméstica nos países superavitários têm de crescer mais rápido do que as suas economias. Como de hábito, os Estados Unidos tentam jogar a responsabilidade pela continuidade da retomada mundial nos ombros dos dois gigantes superavitários (e de outros países asiáticos deste grupo, como Coreia e Taiwan), especialmente da China.

No caso da China, o relatório aponta o dedo para o espantoso ritmo recente de acúmulo de reservas (que freia a apreciação cambial e, consequentemente, a redução do superávit em conta corrente). Como aponta o documento do Tesouro americano, o aumento do estoque de reservas foi de US$ 509,7 bilhões em 2013, o recorde histórico. No primeiro trimestre de 2014, foram mais US$ 129 bilhões.

A China se propôs, a partir de decisões dos seus próprios dirigentes, preocupados em viabilizar a continuidade do milagre econômico do país, a mudar o seu modelo superdependente em exportações e investimentos. A ideia é dar mais espaço ao consumo. O relatório do Tesouro americano é uma cobrança desse compromisso, obviamente a partir do ponto de vista dos interesses dos Estados Unidos.

A um primeiro exame dos números, a redução do superávit em conta corrente chinês de mais de 10% do PIB em 2007 para 2,1% em 2013 (o que é uma queda ante os 2,3% de 2012) é um sinal de que a mudança de modelo está funcionando. O relatório americano, porém, lança dúvidas sobre esse ponto, notando que, como porcentual do PIB global, a redução do superávit chinês é bem menos dramática, porque hoje o país representa uma parte muito maior da economia global. O relatório cita projeções do FMI de que, sob determinadas hipóteses, o superávit em conta corrente da China poderia voltar a crescer este ano como porcentual do PIB do país, e quase dobrar como porcentual do PIB global em cinco anos.

Segundo o Tesouro americano, dados preliminares indicam que a contribuição do investimento para o PIB chinês (em torno de 50%) subiu em 2013, e a do consumo caiu. O relatório acrescenta que a soma do investimento direto estrangeiro e do superávit em conta corrente em 2013 superou US$ 446 bilhões, ou 4,8% do PIB chinês. “A redução do déficit em conta corrente como parcela do PIB da China nos últimos anos foi em larga medida um reflexo do crescimento em ritmo insustentável do investimento”, diz o texto. Com o rápido aumento da produtividade chinesa, continua o documento do Tesouro americano, se a valorização do yuan não prosseguir, a moeda ficará ainda mais desvalorizada.

Na visão dos Estados Unidos, o problema é que a estratégia chinesa de gradual liberalização – e consequente apreciação – do seu câmbio, iniciada em 2005, é lenta e tímida demais. O relatório nota que a previsibilidade dessa trajetória atrai capitais especulativos, que apostam na valorização do yuan, mesmo com os controles impostos pelo país. Mas a preocupação maior dos americanos fica por conta da desvalorização recente, em caso de que o movimento “seja um presságio de uma volta atrás da China na sua anunciada política de permitir que a taxa de câmbio reflita forças de mercado, de reduzir as intervenções cambiais e de se mover na direção de uma taxa de câmbio determinada pelo mercado”. O Tesouro diz, no documento dirigido ao Congresso, que vai “monitorar essa questão de perto”.

Zona do euro e Alemanha

O relatório do Tesouro também traz muitas informações e análises sobre os Estados Unidos e as principais economias do mundo, sempre com foco na política cambial (incluindo o Brasil, caso em que o texto é basicamente descritivo). Há também um parte dedicada às ondas recentes de volatilidade que atingiram os países emergentes. Mas talvez a segunda maior preocupação do Tesouro, após a China, seja em relação à zona do euro, e, particularmente, à Alemanha, a outra grande economia superavitária do mundo.

Na zona do euro como um todo, a conta corrente saiu de um nível próximo ao equilíbrio de 2009 a 2011 para um superávit de 1,3% do PIB em 2012 e de 2,2% em 2013. O que acontece, como explica o relatório, é que os países mais robustos, como Alemanha e Holanda, aumentam o seu superávit, enquanto a periferia problemática reduz o déficit ou até já produz algum saldo positivo – nestes últimos casos, porém, à custa de uma brutal contração da demanda interna.

Na Alemanha, nota o Tesouro dos Estados Unidos, o superávit externo atingiu 7,4% do PIB em 2013, e a demanda doméstica cresceu mais rápido que o PIB em apenas três dos últimos dez anos. Apesar da boa forma econômica do país, as importações alemães recuaram 1% no ano passado, um sinal de que a demanda doméstica está aquém do que poderia ser.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na quarta-feira, 16/4/14.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: