EUA: mal na Covid, bem na economia

Apresentação de James Bullard, presidente do Fed (BC americano) de Saint Louis, mostra que pacote de estímulos fiscais e monetários nos Estados Unidos foram superdimensionados e estão levando economia do país a uma forte recuperação.

Fernando Dantas

19 de janeiro de 2021 | 11h03

Os Estados Unidos estão indo muito mal na pandemia da Covid-19. A maior potência econômica, científica e tecnológica do planeta já teve mais de 400 mil mortos pelo coronavírus e é o décimo-segundo pior país do mundo em termos de mortes por milhão de habitantes, com 1.231, segundo o site Worldometers. O Brasil, por exemplo, com 986 mortos por milhão de habitantes, é o 26º pior. (dados atualizados para 19/1, terça)

Na economia, porém, a história é diferente, como fica claro em recente apresentação de James Bullard, presidente e ceo do Fed (BC americano) de Saint Louis.

Ele nota que a pandemia efetivamente piorou nos Estados Unidos e na Europa, a chamada segunda onda, mas as vacinas estão vindo cedo. A projeção é que, ainda este mês, o número de mortes por coronavírus entre em queda nos Estados Unidos.

E, principalmente, na visão de Bullard, as políticas monetária e fiscal dos Estados Unidos para combater os efeitos econômicos da pandemia foram excepcionalmente efetivas e, na verdade, “foram desenhadas para um choque maior do que o ocorrido”.

Em termos fiscais, as medidas representaram uma injeção de US$ 3,148 trilhões nos primeiros onze anos de 2020, com mais US$ 900 bilhões encomendados no final de dezembro. E agora há o pacote proposto por Joe Biden, o presidente eleito, de US$ 1,9 trilhão.

Como no Brasil com o auxílio emergencial, as enormes transferências nos Estados Unidos a pessoas (uma dos principais programas transferiu parcelas extras de seguro-desemprego a desempregados) levaram a uma forte alta da renda.

Segundo a apresentação de Bullard, a renda pessoal norte-americana alcançou o recorde de todos os tempos no segundo trimestre de 2020.

Em termos monetários, o Fed baixou a taxa básica, os Fed Funds, a praticamente zero desde março e estabeleceu uma série de programas de provisão de liquidez, com apoio do Tesouro americano.

O índice de estresse financeiro do Fed de Saint Louis atingiu em março e abril um pico próximo das altas em 2008, diante da deflagração da crise financeira global. Mas a ação decidida do Fed debelou muito rapidamente a turbulência e o índice de estresse voltou aos níveis pré-crise.

As projeções de queda do PIB norte-americano em 2020 se situam hoje em torno de 3,5%, um número bem mais modesto do que o temido em meados do ano.

O crescimento do PIB norte-americano no terceiro trimestre, de 7,5% (ou 33,4% na forma anualizada como o indicador é divulgado nos EUA) foi o maior já registrado, e a projeção é de que a economia tenha continuado a se expandir acima da sua tendência de longo prazo no último trimestre do ano passado.

O mercado de trabalho, por sua vez, recuperou-se mais rapidamente do que o esperado, confirmando que muitas dispensas foram temporárias, por causa da pandemia.

Comparada à trajetória de recuperação do mercado de trabalho na recessão de 2007 a 2009, a retomada atual está quatro anos adiantada. O desemprego, segundo Bullard, caiu 12,4 pontos porcentuais em sete meses em relação ao pico de 2020, quando se fazem ajustes para problemas de classificação errada de dados que ocorreram ano passado por causa das peculiaridades do mercado de trabalho na pandemia.

E há perspectiva de mais quedas da taxa de desemprego oficial no início de 2021 (em dezembro ficou em 6,7%), à medida que pessoas em “desligamento temporário” continuem a voltar ao mercado de trabalho.

A última projeção do Fed de crescimento da economia americana em 2021 é de 4,2%, mas há instituições importantes bem mais animadas do que isso, especialmente por causa do pacote fiscal adicional que Biden pretende aprovar. O Goldman Sachs, por exemplo, está prevendo expansão de 6,4% dos Estados Unidos este ano.

Na apresentação de Bullard, o problema da inflação é visto pelo lado positivo. As expectativas, que em março e abril estavam bem abaixo da meta de longo prazo de 2% ao ano, de lá para cá se aproximaram.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/1/2021, segunda-feira.

  • Houve uma correção da coluna posterior à publicação relativa às projeções do PIB dos EUA em 2020.