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EUA X China: como o Brasil fica nessa briga?

Não faz sentido acompanhar os Estados Unidos na beligerância exagerada e populista contra a China. Isso não quer dizer que Brasil não deva ter cautela ao lidar com uma potência ditatorial.

Fernando Dantas

01 de agosto de 2020 | 15h52

As tensões entre Estados Unidos e China continuam a se intensificar. A pandemia da Covid-19 pode ter desviado por um tempo a atenção do conflito comercial, e levado a uma pausa nesse contencioso específico, mas a queda de braço geopolítica só fez aumentar.

O coronavírus, na verdade, esquentou a rivalidade, com as acusações contra a China de ter ocultado o início da pandemia e demorado a agir para derrotar o vírus no nascedouro, evitando sua disseminação para o resto do mundo, por um lado; e, por outro, a forma muito mais eficaz com que a ditadura chinesa controlou a epidemia, evitando centenas de milhares de mortes (mesmo considerando que os números chineses não são tão confiáveis), exatamente o contrário do que ocorre nos Estados Unidos.

Hoje, está cada vez mais claro que a guerra comercial é apenas um dos campos de batalha de um conflito muito mais amplo e profundo, em que os dois contendores lutam para ser a potência hegemônica do século XXI.

Como no boxe, os Estados Unidos ainda detêm a faixa de campeão dos pesos superpesados, mas a China se tornou um desafiante temido.

Pesquisas de opinião indicam que grande parcela dos cidadãos norte-americanas se incomoda com o crescente poder chinês, e desconfia das intenções e do “fair-play” do adversário.

O filme “American Factory”, que ganhou o Oscar de melhor documentário de 2019, mostra de forma impressionante a superioridade fabril dos chineses, baseada em disciplina, um foco quase fanático no trabalho e até, possivelmente, poderes de concentração e habilidade manual superiores.

Também deve impressionar o público norte-americano, acostumado à ideia da supremacia tecnológica e científica dos Estados Unidos, que a nota média de seus estudantes de 15 anos na prova de matemática do teste internacional PISA de 2018, da OCDE, tenha sido de 478, sendo 20% inferior aos 591 obtidos pelos estudantes chineses de mesma idade das províncias na costa oriental de Jiangsu e Zhejiang, e das municipalidades de Beijing e Shangai.

Não se trata apenas da elite da elite estudantil chinesa que participou do PISA. De fato, as duas províncias e duas áreas municipais estão na parte mais desenvolvida da China, mas reúnem 183 milhões de habitantes, 13% da população do país e muito mais do que a maioria das nações que participam do PISA.

Com o governo populista de Donald Trump, a rivalidade com a China, que deve permanecer como traço marcante da política externa americana nas décadas à frente, seja em administrações republicanas ou democratas, atingiu níveis histéricos e quase farsescos, bem ao estilo do atual presidente norte-americano.

Surgem ideias extremas, que são levadas a sério e discutidas, como se houvesse quase um estado de guerra entre as duas potências, cujas economias são extremamente entrelaçadas.

Um exemplo é o relatório publicado ontem pela Capital Economics, empresa multinacional de consultoria, análises e projeções econômicas, sobre a possibilidade de que, por iniciativa dos Estados Unidos, os bancos chineses sejam cortados do SWIFT, o sistema de mensagens financeiras usado para processar a maior parte das transações bancárias entre países.

Na verdade, a China parece temer essa hipótese, já que desenvolveu seu próprio sistema, o CIPS, que naturalmente não tem a penetração global do SWIFT.

O relatório especula sobre as diversas formas como os Estados Unidos poderiam modular sanções contra a China por meio dos sistemas de pagamento entre países, mas a pergunta que salta aos olhos é “por que, mesmo?”

Afinal, Estados Unidos têm com a China um contencioso comercial e disputas estratégicas, mas estão longe de um conflito que justifique o uso de “uma opção nuclear”, como se refere o próprio relatório da Capital Economics ao hipotético fechamento do SWIFT para a China.

Para que provocar disfunção econômica e financeira no seu maior parceiro comercial e que compartilha com os EUA parte expressiva das principais cadeias produtivas globais?

Essas questões deveriam estar bem presentes na diplomacia brasileira que, infelizmente, sob o comando de Ernesto Araújo, tende a se alinhar com a sinofobia primária e desnecessariamente raivosa do atual governo norte-americano.

Que fique bem claro que o Brasil deve, sim, em questões que digam respeito à ordem política internacional, favorecer, em relação à China, não os Estados Unidos especificamente, mas o conjunto de nações democráticas, que têm o seu núcleo mais forte na esfera ocidental, nas Américas e na Europa.

Afinal, a China, por ser uma ditadura, torna-se necessariamente menos confiável, o que também se traduz em menos “soft power”.

Em diversas questões, é positivo e/ou ético que o Brasil se junte ao coro das nações que tentam diplomaticamente colocar limites ao poder de arbítrio do Partido Comunista Chinês: Hong Kong, os uigures de Xingjiang e, inclusive, mais especificamente no âmbito do que afeta diretamente outros países, como o Brasil, o poder do Estado chinês nas empresas privadas do país, e os riscos estratégicos que essa interferência acarreta.

Nada disso significa, no entanto, que o Brasil não mantenha saudáveis relações diplomáticas com a China, e explore – com cautela, é claro – as crescentes possibilidades econômicas e tecnológicas derivadas do incrível salto econômico chinês e da vontade do país, sob o comando de Xi Jinping, de projetar o seu poder em escala global.

Em recente entrevista ao jornal “O Globo”, o embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, alertou que a escolha da chinesa Huawey para desenvolver a tecnologia 5G no Brasil teria “consequências”.

Cabe ao governo do Brasil diplomaticamente agradecer o alerta, mas deixar claro para os Estados Unidos que a decisão estratégica sobre as opções relativas ao 5G será feita de acordo com os interesses nacionais brasileiros, e não norte-americanos.

É preciso saber separar, no atual conflito entre os Estados Unidos e a China, o que, da parte americana, representa uma legítima desconfiança ante o aumento de poder global de uma nação não democrática, e o que é apenas o orgulho ferido de ver despontar outra megapotência. O Brasil pode acompanhar a primeira motivação. Mas não deve de forma alguma se deixar guiar pela segunda.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/7/2020, sexta-feira.

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