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Europa enfrenta “japonização”

O maior risco de um quadro permanente de crescimento muito baixo com pressões deflacionárias encontra-se hoje na Europa. O Japão já caiu na armadilha há muito tempo, os EUA ainda resistem melhor.

Fernando Dantas

15 de outubro de 2019 | 10h23

A Europa – e mais especificamente a zona do euro – é a região do mundo que hoje está numa posição mais crítica, do ponto de vista do futuro da economia global. O grande fantasma é a mistura duradoura de crescimento econômico anêmico com inflação muito baixa, ou até deflação.

Pode-se dizer que o Japão, desde o estouro da sua bolha na virada da década de 80 para a de 90, encontra-se nessa situação, com períodos melhores e outros piores. De certa forma, o mundo já se acostumou a conviver com a armadilha deflacionária que tomou conta do Japão, O país asiático, aliás, apesar de ator importante da economia global, não se compara ao tamanho e ao número de interconexões da zona do euro.

Os Estados Unidos, por sua vez, não estão imunes a essa síndrome de baixo crescimento com risco deflacionário, mas sem dúvida ainda estão longe do que recentemente o famoso economista americano Lawrence Summers chamou de “buraco negro monetário”. A China, por sua vez, desacelera, mas, como país emergente de elevado crescimento, definitivamente não corre esse risco.

Já a Europa é exatamente a região do mundo que parece mais na iminência do risco da “japonização”, como alguns chamam o tipo de quadro de anomia que se instalou na economia nipônica desde o início dos anos 90.

Segundo as projeções do FMI (que serão publicamente revisadas na terça-feira, 15/10), com provável viés de baixa para o crescimento), a zona do euro deve crescer 1,3% este ano e em torno de 1,5% em 2020 e 2021.

Já a inflação, também nas projeções do Fundo, deve ser de 1,4% este ano, 1,6% em 2020, e 1,8% 2021. A meta de médio prazo de inflação do BCE é de aproximadamente 2%.

Mesmo com a taxa básica de juros negativa e todo o volume de afrouxamento quantitativo (compra de títulos longos no mercado) realizado nos últimos anos pelo Banco Central Europeu (BCE), a inflação da zona do euro vem caindo. A inflação anual até agosto de 2019 foi de 1,4%, comparada a 2,2% até agosto de 2018.

A Europa também tem vulnerabilidade particular em relação à japonização por questões institucionais ligadas à zona do euro (como ser verá mais adiante neste artigo).

Há um certo consenso entre os analistas de que os bancos centrais, como o BCE, já fizeram quase tudo o que é possível para se contrapor aos ventos deflacionários desde a grande crise financeira de 2008-2009. Assim, taxas básicas foram cortadas até zero e, em seguida, em alguns casos, até território negativo.

Houve maciços programas de afrouxamento quantitativo, que visam baixar as taxas de mais longo prazo (as taxas básicas determinadas pelos bancos centrais afetam diretamente apenas os prazos mais curtos).

Também foi usada a chamada “forward guidance” (orientação prospectiva), em que os BCs sinalizam para o mercado que não vão parar o bombeamento monetário enquanto a inflação não subir.

Esses remédios tiveram efeito e, junto com os enormes pacotes fiscais que se seguiram à crise global, podem ter contribuído para que a situação pós-crise não tenha sido ainda pior: o cenário limite que vem à mente, e que foi evitado, é a Grande Depressão dos anos 30. Porém, especialmente no caso da Europa, todo o arsenal do BCE não foi suficiente para tirar a zona do euro da área de risco de japanização.

E a grande maioria dos analistas considera que taxas negativas, compra de títulos pelos BCs e forward guidance agora terão efeitos cada vez menores. Em outras palavras, a munição dos BCs praticamente acabou.

Existe uma última cartada, mas que vai contra tudo o que establishment pregou nas últimas décadas: o governo aumentar os gastos, com financiamento direto pelos bancos centrais, na base de “criar dinheiro”. Seria uma última tentativa de última instância, que exigiria coordenação entre BCs e Tesouros, com apoio dos governos e da classe política.

Mas essa alternativa, apelidada de “dinheiro de helicóptero”, parece muito distante do que as autoridades monetárias e fiscais contemplam, mesmo que já venha sendo levada a sério por importantes economistas.

Uma possibilidade bem mais mundana, e mais factível, seria que países com grandes superávits em conta corrente e situação de contas públicas confortável, como a Alemanha e Holanda, fizessem programas volumosos de expansão fiscal (sem financiamento monetário) para estimular a demanda do continente.

Já se cogita até de um plano concertado de estímulo fiscal dos países da zona do euro, mas oficialmente a ideia ainda é descartada.

E é aí que ficam claros os problemas institucionais da Europa. Se já é politicamente difícil fazer grandes estímulos fiscais em um país apenas (como prova a resistência enfrentada por Obama em 2009), o que dirá de coordenar as ações com os governos nacionais de 19 países? Em 2009, com o pânico disseminado, os europeus conseguiram se coordenar. Hoje, porém, não há o temor de uma catástrofe iminente para passar por cima da teia de interesses e conflitos políticos.

Adicionalmente, há uma resistência particularmente tenaz a sair do figurino ortodoxo justamente nos países que teriam espaço para inflar sua demanda via impulso público, como a Alemanha.

Jens Weidman, presidente do Bundesbank, o BC alemão, que faz parte do BCE, é justamente quem mais se contrapôs às iniciativas de estímulo capitaneadas por Mario Draghi, presidente do BCE, embora no frigir dos ovos o alemão tenha sempre cedido ao italiano – como notou recentemente Gavyn Davies, colunista de macroeconomia do Financial Times.

Mas Davies acrescenta que Weidman perdeu a disputa para ser o novo presidente do BCE (Draghi sai em breve) para a francesa Christine Lagarde, e pode se tornar menos cooperativo.

A Europa, de certa forma, é hoje a linha de resistência contra a japonização macroeconômica dos países avançados. Se sucumbir, a maior parte do mundo rico (Europa e Japão) estará nessa situação, e a chance de contaminação dos Estados Unidos aumentará. Também crescerão os efeitos negativos para países emergentes, como o Brasil, do baixo crescimento nos maiores motores da economia mundial (embora as baixas taxas de juros ajudem o Brasil no front fiscal).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/10/19, segunda-feira.

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