Expectativa de inflação continua a piorar

Não adiantou o Banco Central ter supreendido o mercado com a alta de 0,25 ponto porcentual (para 11,25%) da Selic na última reunião do Copom. Expectativas inflacionárias de 2015 e, agora, também de 2016 estão piorando.

Fernando Dantas

12 de novembro de 2014 | 23h43

Apesar de o Banco Central ter surpreendido o mercado com a alta de 0,25 ponto porcentual da Selic na reunião do Copom de outubro, levando a taxa básica para 11,25%, as expectativas de longo prazo da inflação não estão melhorando. Na verdade, estão piorando. A Selic foi elevada em 29 de outubro. Desde 30 de outubro, a mediana das expectativas de inflação para 2016 do Focus subiu de 5,5% (onde estava desde dezembro de 2013) para 5,6%. Para 2015, a alta foi de 6,33% para 6,4%.

“As pessoas não acreditam mais que o Banco Central vai conseguir jogar a inflação para a meta oficiosa de 5,5% nem mesmo em 2016”, diz Samuel Pessôa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance. Ele usa o termo “oficiosa” porque existe uma percepção no mercado de que, diante da longa permanência do IPCA próximo ao teto de tolerância do sistema de metas, de 6,5%, e muito distante da meta em si, de 4,5%, o BC estaria mirando em 5,5% –  uma primeira e intermediária fase na longa jornada de volta à meta central.

Pessôa acha que os primeiros sinais da política econômica no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, ainda envoltos na incerteza sobre o novo ministro da Fazenda e sem definições claras sobre política monetária e fiscal, estão levando o mercado a concluir que não dá para trazer a inflação para 5,5% nem em dois anos.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, nota que a deterioração das expectativas também chegou ao chamado “top five” do Focus, o grupo de cinco instituições que mais acertou suas previsões. Na última semana, a expectativa do IPCA em 2015 do Top Five subiu de 6,5% para 6,56% (pode ter havido mudança na composição do grupo, ela ressalva).

Há também o Top Five de médio prazo, as cinco instituições que mais acertaram as previsões a médio prazo, e, neste caso, a alta na expectativa de inflação em 2015 foi ainda maior, de 6,38% para 6,74%.

Solange dá muita ênfase, na análise sobre por que as expectativas ainda estão piorando, à questão cambial e de reajuste dos preços administrados.

Ela nota que o real já perdeu valor significativamente, e o quadro continua a apontar na direção da mesma tendência: o Brasil tem um grande déficit em conta corrente, as commodities estão em queda e o dólar tem se valorizado com as expectativas sobre a retomada americana.

Esse quadro ocorre com um pano de fundo doméstico de incertezas em relação ao próximo governo, sem que um novo ministro da Fazenda tenha sido anunciado ou um plano fiscal para o próximo ano tenha sido anunciado.

Apesar de o BC ter sinalizado ao longo dos últimos anos que o pass-through (repasse da desvalorização cambial à inflação) tem caído, Solange acha que não se deve subestimá-lo. Pelos cálculos da ARX, cada 10% de alta do dólar leva a um pass-through de 0,5 ponto porcentual no IPCA ao longo de um ano.

O enfraquecimento da atividade, refletido nas projeções de crescimento do PIB este ano próximas a zero, pode de fato reduzir o pass-through, acrescenta a economista. Mas ela acha que este efeito pode ser menor do que se pensa, já que as empresas estão com margens apertadas e vão tentar repassar os custos das altas dos preços administrados (especialmente da energia) e do câmbio. “As empresas não conseguem conviver com dois choques de custo ao mesmo tempo”, diz Solange.

O economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, acrescenta à lista de sinais de piora das expectativas inflacionárias a inflação implícita na diferença entre as taxas de juros de títulos públicos indexados à inflação e prefixados. “Estão em torno de 6% a 6,5% mesmo para prazos mais longos, como 2017 – este diferencial não mede exclusivamente a inflação, mas é um sinal de que nem só os economistas veem piora, os operadores também percebem”, ele diz.

Para Schwartsman, a perda de credibilidade da política monetária vem se acentuando, mesmo com a surpreendente alta de 0,25 da Selic na última reunião do Copom.

“Houve uma expansão fiscal maciça este ano e o BC ficou a maior parte do tempo com a conversa de que a política fiscal se movia na direção da neutralidade”, ele observa. Assim, na visão do economista, apesar de ter surpreendido com a alta de 0,25, o BC deveria ter agido antes, já que estava claro que a inflação não estava em nenhuma trajetória de convergência para a meta. Fatores a reforçar este ponto foram as tensões no câmbio e a óbvia necessidade de corrigir a defasagem de preços administrados.

“O BC não entrega a inflação na meta (ele se refere aos 4,5%) há muitos anos, é visto como manietado pelo governo, fica persistentemente atrás da curva e erra consistentemente suas previsões”, acrescenta Schwartsman, para explicar o prosseguimento da deterioração das expectativas.

O economista nota ainda que, com a piora das expectativas inflacionárias, a alta de 0,25 pode nem ter nem mexido no juro real percebido – para ele, não há nenhuma indicação de que o juro real esteja acima do neutro (o que teria efeito anti-inflacionário).

A ata da reunião de outubro, finalmente, foi considerada “dovish” (postura branda em relação à inflação) por boa parte do mercado, o que também não contribui para domar as expectativas desancoradas.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/11/14, terça-feira.

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